sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Afocinhados – Exmo. Sr. Hilário Mendes e Exmo. Sr. Capitão Armando Simões

Sei que estais pendentes do desenrolar da contenda, que do resultado já todos nós sabemos. Por isso me apreço a pegar na pena e peço humildemente ao Deus dos escribas que me ajude, que não comece a colocar à frente de cada palavra uma outra, que afaste de mim o diabo do Sr. Sterne com as suas achegas, derivas, e, ai meu Deus, ordinarices, para que esta página baste. Não vos vou recordar onde ficámos, pois tenho a certeza que não preciso. E também espero não defraudar as vossas expetativas quanto ao desenrolar dos factos, que muitas certezas já acumulastes para vos verdes agora abandonados. Sigamos, pois, em frente, armados das nossas convicções. Sim, frente a frente estão afocinhados o Exmo. Sr. Hilário Mendes e o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões. Escritos a letra bem diferente. A letra grande e bem desenhada do Dr. Galvão ali enredada com a letra pontiaguda da mão anónima. Em extremos opostos, os Exmos. como punhos e o Srs. como guardas de duas espadas que se digladiam. A do Capitão Simões é mais comprida, o que, parecendo uma vantagem, não é. Já lá vão os anos, e a cadeira e o trabalho burocrático, retiraram-lhe a habilidade do manejo de uma arma deste porte, atrapalhando-o mesmo um pouco, tendo a lâmina Capitão Armando Simões de ser movida com cautela entre papelada, armários, secretária, tinteiros e mata borrões. Já o seu adversário pode tirar partido da manobra ágil que a pequenez de uma Hilário Mendes proporciona. O Capitão Simões é discípulo das manobras disciplinadas em que os exércitos se posicionam com uma certa idiotice coreográfica. Por isso, Hilário sabe que para vencer basta envergonhar, pois o que a disciplina mais teme é a descompostura. Quando Hilário entrou na sala o Capitão Simões empertigou-se confiante como se envergando o seu uniforme de gala. Sente-se Hilário, disse com o desdém natural dos que, sabendo de antemão o resultado, gostam de tratar o adversário com complacência. O que sabe o Hilário do paradeiro do Joaquim Pinote, desfere o Capitão Simões, empunhando na mão enxuta a carta do Dr. Galvão. Hilário sente o vão desferir da estocada e responde calmamente, o Pinote foi preso, como o meu Capitão ordenou. Está preso!? Atira-lhe o Capitão em tom crescente, marcando o início das hostilidades com uma intensa salva de artilharia. Preso!? Dispara uma segunda salva devido ao gosto pelo estrondo. E porque não fui informado, vozeira por entre o fumo. Hilário aproveita para mudar de posição colocando-se lateralmente e observando o rosto helénico do Capitão Simões. É daí que resolve desferir o primeiro golpe. O que está na carta do Dr. Galvão não corresponde à realidade, quando apanhámos Pinote ele não estava acompanhado. O Capitão Simões é duplamente surpreendido, pelo ângulo da estocada e pelo alvo escolhido. A carta vacila na mão. Como sabe o que está nesta carta, pergunta-lhe no sobressalto de um exército que teme pela sua estratégia. Tenho ordens de Lisboa para ler toda a correspondência. A lâmina Hilário Mendes trespassa Sr. Capitão Simões enquanto a carta do Dr. Galvão tomba às reviravoltas.

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