sábado, 25 de fevereiro de 2017

Guerra – de Razões

Há obras que o melhor é não as começar porque nunca mais acabam. Deixei-vos com a carta do Dr. Galvão tombando em rodopio e agora vejo-me na obrigação de esclarecer se estava ou não Pinote acompanhado, e se não estava, se foi o Dr. Galvão induzido em falta ou foi ele próprio que pisando a ténue linha da ética profissional inventou esse facto, e se foi induzido em falta, quem o induziu e com que propósito, e terá esse alguém sido também induzido ou inventou ele a história, e por que razão e com que objetivo, e se foi o próprio Dr. Galvão que criou o facto, então porque o fez, porque arriscaria a sua reputação por uma criada e um comunista, ainda que patrocinados pelo Sr. Marquês, ou será que já tinha planeado escusar-se com algum personagem menor da nossa história, um Mouco que disse que ouviu o Mouro dizer, e se Pinote estava acompanhado então porque é que este narrador vos omitiu esse facto, e se assim foi qual a razão, qual foi a sua intenção, e será que se irá escusar em questões de estilo literário, de fluidez da narrativa, de coerência concetual dos cenas e seus cenários, sim, claro que a corrida do Pinote monte abaixo perderia muito do seu teor épico se tivesse acontecido no meio de uma multidão, em que não seria claro se Pinote avançou por determinação própria ou se foi a isso empurrado pela turba, ainda que quando se chega aos movimentos de massas a própria determinação perde a individualidade, ou terá este narrador intenções de endeusar, de criar modelos para vender ideologias, sejam elas do individual ou coletivo, ou será que a solidão forçada de Pinote aconteceu devida a uma sua obsessão infantil por sapos, esses improváveis seres, redondos e de olhos esbugalhados, os antepassados concetualmente mais próximos das vacas, ou não andassem ambos no mundo a pastar, ou então este nem sequer é um problema pois a carta do Dr. Galvão foi escrita com o cuidado de um advogado por forma a não deixar claro se Pinote estava acompanhado no momento da prisão, pois se um companheiro afirmar que Pinote foi levado isso não quer dizer que seja um testemunho direto, pode ter sido um guarda que chibatou, ou o Mouco ter deixado cair alguma frase na taberna onde foi lavar o suor da porrada em vinho, mas se é assim, porque é que Deolinda andava à procura de Pinote, indo todos os dias à vila, será que isso nunca aconteceu na realidade, que foi um desvio poético do narrador, uma desculpa para um cântico, e se não estava na carta do Dr. Galvão porque é que o Capitão Simões aceitou como verdadeira a afirmação do Hilário, será que não leu a carta com atenção, ou na confusão da batalha não teve a frieza de avaliar cada uma das palavras de Hilário, talvez o seu torpor burocrático o tenha incapacitado a desviar-se das mais óbvias estocadas habituado que estava a legislar em paz, e se o Pinote nunca existiu, nem o Marquês, e muito menos Deolinda, que foram inventados porque a Joaninha ameaçava tornar-se numa personagem enfadonha, afogada na luta de classes, e nada melhor que ir buscar um passado cheio de sobressaltos para dar um salto em frente, e se de facto Pinote existiu mas não era comu

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Afocinhados – Exmo. Sr. Hilário Mendes e Exmo. Sr. Capitão Armando Simões

Sei que estais pendentes do desenrolar da contenda, que do resultado já todos nós sabemos. Por isso me apreço a pegar na pena e peço humildemente ao Deus dos escribas que me ajude, que não comece a colocar à frente de cada palavra uma outra, que afaste de mim o diabo do Sr. Sterne com as suas achegas, derivas, e, ai meu Deus, ordinarices, para que esta página baste. Não vos vou recordar onde ficámos, pois tenho a certeza que não preciso. E também espero não defraudar as vossas expetativas quanto ao desenrolar dos factos, que muitas certezas já acumulastes para vos verdes agora abandonados. Sigamos, pois, em frente, armados das nossas convicções. Sim, frente a frente estão afocinhados o Exmo. Sr. Hilário Mendes e o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões. Escritos a letra bem diferente. A letra grande e bem desenhada do Dr. Galvão ali enredada com a letra pontiaguda da mão anónima. Em extremos opostos, os Exmos. como punhos e o Srs. como guardas de duas espadas que se digladiam. A do Capitão Simões é mais comprida, o que, parecendo uma vantagem, não é. Já lá vão os anos, e a cadeira e o trabalho burocrático, retiraram-lhe a habilidade do manejo de uma arma deste porte, atrapalhando-o mesmo um pouco, tendo a lâmina Capitão Armando Simões de ser movida com cautela entre papelada, armários, secretária, tinteiros e mata borrões. Já o seu adversário pode tirar partido da manobra ágil que a pequenez de uma Hilário Mendes proporciona. O Capitão Simões é discípulo das manobras disciplinadas em que os exércitos se posicionam com uma certa idiotice coreográfica. Por isso, Hilário sabe que para vencer basta envergonhar, pois o que a disciplina mais teme é a descompostura. Quando Hilário entrou na sala o Capitão Simões empertigou-se confiante como se envergando o seu uniforme de gala. Sente-se Hilário, disse com o desdém natural dos que, sabendo de antemão o resultado, gostam de tratar o adversário com complacência. O que sabe o Hilário do paradeiro do Joaquim Pinote, desfere o Capitão Simões, empunhando na mão enxuta a carta do Dr. Galvão. Hilário sente o vão desferir da estocada e responde calmamente, o Pinote foi preso, como o meu Capitão ordenou. Está preso!? Atira-lhe o Capitão em tom crescente, marcando o início das hostilidades com uma intensa salva de artilharia. Preso!? Dispara uma segunda salva devido ao gosto pelo estrondo. E porque não fui informado, vozeira por entre o fumo. Hilário aproveita para mudar de posição colocando-se lateralmente e observando o rosto helénico do Capitão Simões. É daí que resolve desferir o primeiro golpe. O que está na carta do Dr. Galvão não corresponde à realidade, quando apanhámos Pinote ele não estava acompanhado. O Capitão Simões é duplamente surpreendido, pelo ângulo da estocada e pelo alvo escolhido. A carta vacila na mão. Como sabe o que está nesta carta, pergunta-lhe no sobressalto de um exército que teme pela sua estratégia. Tenho ordens de Lisboa para ler toda a correspondência. A lâmina Hilário Mendes trespassa Sr. Capitão Simões enquanto a carta do Dr. Galvão tomba às reviravoltas.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Duelo – de Morte

Prolonga-se esta narrativa para além do que tinha sido imaginada, urge, pois, pôr-lhe um final, a bem de outras que clamam à porta pela sua vez, gritando, quando é que tem fim esta novela. Sendo eu um ente fraco à solicitação alheia, principalmente quando carregada da necessidade, lanço-me à obra. Pensei, pensei, e conclui que o melhor é terminar com um duelo de morte. Mas já ouço as mesmas vozes que me impunham o fim rápido alegar que duelo está bem, mas anunciar já que é de morte retira-lhe a tensão dramática. Ah, lamentais-vos, mas afinal seguíeis com atenção! Pois, então, mais vos digo, vai morrer a alegria e a vida e vencer a ignomínia, e de resto, de forma bem traiçoeira. Enlouqueceu, dirão, deitar assim pela janela um tão árduo enredo. Descansai que ainda não é desta, pois sei bem que ao lerdes duelo de morte logo deitastes os olhos ao fim da página. Sim, morre o ideal republicano, vencido pela sua fraqueza, o gosto pela vida. Triste lição esta. Mas tantas estocadas tenho para relatar que devo com presteza começar. Quem se enfrenta? De um lado, está a carta do Dr. Galvão ao Capitão Simões, do outro, a carta anónima de que, suspeito, sabeis a origem e o destino. Qual o objetivo do duelo? A liberdade de Pinote. Quais as armas escolhidas? As mais naturais para os contendores: o envelope e a folha. Quais os golpes permitidos? Bom, aqui foi difícil chegar a um acordo. De início procurou-se que não houvesse golpes baixos, mas um parecer do Dr. Macedo, juiz na comarca, foi de opinião que entre cartas não há golpes baixos. Baseou o seu entendimento no facto de não fazer sentido dizer que uma carta deu uma joelhada a outra, pois as cartas não possuem joelhos, nem partes sensíveis onde aplicar tal golpe. Com certeza uma opinião formada mais na leitura de leis do que de correspondência. Mas assim foi decidido, e as duas cartas enfrentaram-se sabendo que dali apenas uma sairia viva. Começaram executando uma dança giratória, medindo-se, mantendo a distância. A carta republicana sentiu uma profunda repulsa ao ler o endereço da sua adversária, Exmo. Sr. Hilário Mendes, não conseguindo conter as palpitações provocadas pela revolta das palavras e frases contidas na sua folha. Logo aí a anónima partiu em vantagem. Devido à emoção, foi a carta republicana quem esboçou o primeiro ataque. Levantou a aba e deixou sair um pouco da folha para que a anónima ficasse ciente dos seus valores e princípios. Vã carga esta sobre uma anónima. Como resposta fez-se dengosa, pois sabia que a gentalha republicana é atreita aos prazeres da carne. Estes movimentos ondulatórios provocaram grande desconcerto. A folha, cheia de palavras, resistia, mas o envelope, concebido para a rua, não ficou de todo insensível. Tirando partido da vantagem, a carta anónima chega-se à republicana, e, desculpe-me o Dr. Macedo, a melhor palavra que encontro para descrever este golpe é, empernando. Ah, miséria, que ainda não é desta que consigo acabar. Esperem mais um pouco, que a vós já regresso com mais uma página da refrega.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Visita – Hilário

São vários os tipos de visita. A visita de cortesia, feita ao princípio da tarde para não incomodar, que se pode deixar ficar para o lanche, mas nunca para jantar. A visita de negócios, feita com um objetivo mútuo, prolonga-se enquanto necessário, terminando assim que qualquer uma das partes o decida. A visita de agradecimento, quase sempre curta, cumpre um ritual para que seja registado que não se fica em falta. A visita de amizade, que entra pela casa adentro, abrindo-se às intimidades. A visita de apresentação, onde um fala e o outro observa, e é o introito de futuras visitas. Mais haverá, tantas quantas as etiquetas, mas estas chegam para o que nos traz aqui, a visita que Hilário Mendes fez à Sra. Marquesa. Um pouco inesperada. Não é que não houvesse no passado um historial sobre o qual se pudesse desenhar o protocolo desta. Eram frequentes as idas do pai de Hilário a casa dos Marqueses. A mais das vezes para receber instruções ou dar conhecimento. Uma variante pobre da visita de negócios, em que apenas um dos lados a pode dar por terminada. Claro que também houve visitas de agradecimento e apresentação. Algumas na presença de Hilário, como quando o pai foi apresentar o casal recém-casado. Mas todas elas diferentes das visitas que o próprio Hilário se habitou a fazer. Não aos Marqueses, mas às casas dos oposicionistas, onde quer que eles se encontrassem, como foi a subida ao monte para visitar Pinote. Visitas onde a urgência da necessidade não dá tempo à cobertura da etiqueta. Por isso, quando a Sra. Marquesa soube do pedido de Hilário Mendes para ser recebido, não pôde deixar de ficar a matutar. Procurou decidir sob que protocolo se deveria reger. E nada melhor que o passado para definir as regras de correspondência de dignidade. Mas também sabia da recente promoção de Hilário, que o tinha tornado num homem respeitado, até mesmo um pouco temido. Por outro lado, o pedido era-lhe diretamente dirigido, não incluindo o Sr. Marquês, o que sugeria a exclusão da visita de cortesia ou mesmo a de negócios. Andava por isso apreensiva, de modo que quando Hilário entrou resolveu deixar-lhe marcar o tom da conversa. Os meus respeitos Sra. Marquesa, e os meus agradecimentos por me receber, disse Hilário mantendo uma distância circunstancial. Como está Hilário, como está a sua esposa, respondeu-lhe um pouco tranquilizada, e acrescentou, muitos parabéns pelas suas novas responsabilidades. Muito obrigado, respondeu com uma ligeira vénia, sabe que aqui terá sempre alguém pronto a servi-la. A que devo este prazer, questionou-lhe a Sra. Marquesa. Venho agradecer-lhe a dedicação que a Sra. Marquesa demonstra pela Nação, disse Hilário mantendo a cabeça semi-fletida e avançado meio passo enquanto procura os olhos da Sra. Marquesa. Não tem de quê, sabe que nesta casa temos a maior consideração pelo trabalho do Senhor Doutor em prol de Portugal. Venho comunicar-lhe em primeira mão que apanhámos o Joaquim Pinote, disse Hilário acercando-se da Sra. Marquesa. Obrigado, juntou-lhe com intimidade na voz.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Poema – Marquesa

Quem nunca sonhou verter para a folha um pouco da sua alma. Quem nunca sonhou ser musa de poeta. Quem nunca passou um mau bocado. Quem nunca procurou na pena uma companheira. Quem nunca procurou o consolo num poema. Quem na noite escura não acendeu a luz sobre a folha branca. Estas são os princípios que regem a escola da poesia. Já lá vai tempo desde que a frequentei. Era novo e sonhava, como todos nós, vir a ser possuído por um génio, ficar para a posteridade. Somos compelidos, por isso, a percorrer mundo, quase sempre de noite. Noites de lua ou sem ela, como deve ser. Noites de tempestade, à procura do momento mágico em que um humano e a natureza se conciliam num ato singular. Foi por isso que ao ver a Sra. Marquesa acordada noite fora me fui colocar à sua mercê sobre a escrivaninha. Ali estive algum tempo, atarracada, à espera que notasse em mim. Andava agitada a Marquesa. Especialmente pela madrugada. Foi ainda antes da aurora que o rapaz regressou com a cesta cheia, de onde vem tão cedo que se não vislumbra a hora. Da janela do meu quarto presencio este enigma, sabe Deus porque estou acordada se nada deveria acontecer lá fora. Mas ao que os meus olhos veem não devo correr a cortina, pois se Ele me quis desperta é porque esta pode ser a minha sina. Quem dele se desobriga mais tarde ou mais cedo se afadiga, no remorso ou na pena por não ter sido digna. Podem de mim mal falar mas sou eu que decido onde coloco a pena, mesmo nesta carta anónima que escrevo com temor, mas sem problema. Mas porque sou eu assim, se calhar não devia, mas se de meu amo sou escrava a Deus sou obrigada. Coitada dessa outra mulher de criança ao peito, devo por ela fazer aquilo que não me diz respeito. Se Ele aqui me quer, não sou propriamente eu que o faço, mas o próprio Senhor isso me poisa no regaço. Escreve Deus por linhas tortas e eu dele sou a espada, que neste mundo faz justiça, quando poucos mais se importam. Mas se a meu senhor fujo foi porque ele não me quis agarrar, que muito pronta estava eu para lhe agradar. Que culpa tem esta outra mulher que não seja ter vindo ao mundo no lugar errado e num quarto sem fundo. Mas porque disso te preocupas, vede como eles bailam, ignoram o poderoso como cães sem laia. Serão gente, serão dele filhos, mas só na aflição recordam que têm alma dentro da carne calva. Anda ela pela casa como se não fosse minha, por isso me trespassa uma dor bem comezinha. Perdoai-me meu Deus por cumprir a vossa vontade, embora saiba que possa estar a pecar se fosse noutro lugar. A este palácio vim parar, não sei se por minha vontade, mas foi com certeza por razões de lealdade. Pelos quadros na parede suspeitei com aflição que não serei a primeira a que as coisas não correm de feição. Que posso meu amo fazer para quebrar esta sorte, se o bem só por si parece trazer mais dor do que a morte. Deixai, deixai as coisas ocorrer, pois o mundo é como a roda onde se coloca a criança que nasceu sem norte. Também eu me sinto para aqui perdida, ainda que na genealogia me seja fácil encontrar de quem sou a preferida.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Cântico – Deolinda

Sereis vós daqueles que se emocionam com um hino, que não resistem a um estádio em uníssono, a uma parada, a um desfile, a um mar de gente entoando palavras? Sabei, pois, que o hino é um meu irmão extraviado. Depois de uma cuidada educação musical, do dedilhar do piano na meninice, deixou-se encantar pelas certezas, ganhou músculo, perdeu o ouvido. A verdadeira emoção está nas incertezas que nos levam a procurar chaves, a estar atendo ao pormenor. Uma emoção que vai e vem. Que ataca de surpresa as mais inusitadas partes do corpo. Um vibrar aqui. Um baque ali. Depois, um enlevamento que não deixa nada de fora. E, uma vez lá em cima, o silêncio. É isso que o hino não percebe, o silêncio. Tão cheio de si, teme que não é. O que eu aprendi, e ele esqueceu, é que existo para me calar. Foi assim quando o Aires regressou com a cesta cheia. Eu percebi logo que o meu irmão subiu aquele monte, como gosta, ao ritmo do latido dos cães, aos gritos de estímulo dos homens, com a certeza que o caçador tem das delícias da presa. Imobilizei Deolinda com um grito, e podei ter a certeza que Aires nada ouviu. Parecia tão etéreo o Aires em frente a Deolinda, pairava com o seu ar, dando voltas sobre si mesmo, e da cesta nada caía. Depois atingi os músculos da face direita de Deolinda, pois no exaltar inicial das assimetrias está a arte da composição. É quando o Aires começa a abrir a boca para dizer não sei o quê que Deolinda sai comigo numa correria. De quanta coisa é feito o mundo. A poeira, que saúda o toque dos pés de Deolinda, atira-se ao ar com determinação. As pedras balançam-se à nossa frente, discutindo alternativas de caminho, a várias vozes. Vemos o casebre ao fundo, aumentando de intensidade, elevando-se enquanto nos aproximamos. Num último fôlego chegamos ao cimo. Deolinda entra por ali a dentro, deixando-me para trás, e estaca em frente ao recanto semicoberto, fixando a marca do corpo de Pinote sobre a laje. Silêncio. Se a ida foi presto, o regresso é lamentoso. Quão diverso é o mundo. Quão diferente a descida de Deolinda da de Pinote. Onde um arrancou a pedra do chão na raiva da corrida, o outro nela se enrola, levando-a em frente, como um empecilho das extremidades, tolhendo-as, arrastando-as. Como se prolonga este desaparecimento. De Pinote conta-se apenas a mancha no chão. Onde estás Pinote. Quem te levou. O Marquês perguntou por ti. O Dr. Galvão escreveu ao Capitão Simões. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que eu ando neste desvario. Todos os dias à vila vou. Todo o dia repito o caminho. E nada. Nada. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou. Que a poeira já não é minha amiga. Nem as pedras me indicam o caminho. Onde estás Pinote. Onde estás. Quem te levou? Onde está o hino? Onde estás irmão?

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Soco – Hilário e Pinote

Anda esta narrativa numa modorra, voltada para a caraterização psicológica dos personagens, mostrando nuances, roçando mesmo a mariquice dos diálogos interiores, mas eu não gosto nada disso. Para mim, onde não há ação não há nada. E não me venham com a importância de consciencializar os atos. Ponham-se a consciencializar, ponham-se, e depois digam que apanharam. Consciencialização é já com o outro no chão. Aí sim, é um regalo de diálogo interior. Vê-lo a retorcer-se restitui-nos a tranquilidade à respiração e um claro entendimento de como as coisas são. Depois olhamos à volta e sentimos como nos olham com respeito, e já está, é isto o mundo. Sei que há por aí muitos literatos que discordam de mim, mas a verdade é que evitam cruzar-se comigo. Não me preocupam. Enquanto estão às voltas com as suas matizes emocionais eu treino no saco. Até vos digo mais, embora não o confessem, até eles me admiram. Um vencedor é um vencedor, que raio. Tudo isto vem a propósito de uma polémica em que estive recentemente envolvido. Quem deu um soco em quem? Quem se acobardou? Diriam que isso pouco interessa. O Pinote já está dentro. Apanhou uma boa zurra. De grande que foi, que o Hilário até teve que o manter uns tempos incógnito no cárcere, a ver se ficava menos feio. Mas o respeito é muito bonito e houve quem dissesse que no monte foi o Pinote que malhou no Hilário. Que este até largou o cão por lhe faltar a firmeza na mão quando viu o Pinote correr para ele. Que já foi lá dentro que Pinote recebeu a visita do Mouco. Que dada a importância do preso, havia dois guardas à escuta, um de cada lado, enquanto o Mouco e o Pinote resolviam uma questão antiga. Dizem que o Pinote pouco falou, talvez por respeito pelo outro. Que às tantas até tiveram que agarrar no Mouco pois a argumentação sem resposta enlouquece qualquer um. Isto é o que dizem. Mas o importante não é isso, o importante é saber se o Hilário largou ou não o cão. Se virou costas, e começou a correr monte abaixo. Se o Pinote o agarrou e disse, vira-te. Se Pinote teve que o fazer mudar de opinião. Se nesse momento eu estive no punho de Pinote, ainda antes dos guardas finalmente o agarrarem. Bom, tenho que confessar que é uma grande responsabilidade. Não estou habituado a este tipo de problemas. No início até me pareceu que era simples. Mas depois de ver o Pinote amassado na cela fiquei um pouco confuso. Graças a Deus que o Hilário logo me mandou chamar. Tivemos uma conversa olhos nos olhos. Como sabem eu não sou muito de conversas, e gosto de tudo muito bem explicadinho. Mas está muito bem informado o Hilário. Disse-me que já tinha ouvido falar de mim. Boas referências, disse. Se continuasse assim teria futuro. Talvez até viesse a trabalhar para ele. Como verdadeiros colegas. Sem problemas de podermos ser vistos em camaradagem. De repente tudo fica claro na minha cabeça. O Hilário não é como esses intelectuais que me olham com repulsa. O Hilário larga o cão pois não quer empecilhos. Vira as costas ao Pinote para se concentrar, e enquanto o sente aproximar eu encho-lhe a mão.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Bispote – Marqueses

É magnífica a obra de Deus. Somos continuamente maravilhados pelas infinitas combinações fruto da sua criação, como um livro cheio de enigmas que possamos passar a vida a reler, encontrando sempre algo de novo. Mas, não há nada mais rico de diversidade do que a querela entre um homem e uma mulher. Ela pode durar uma vida inteira e nunca se esgota. Sinto-me por isso uma obra de Deus, já que é sobre mim que os Marqueses desenrolam um infindável rol de argumentações, pequenos ditos, observações en passant, que, todos juntos, dariam com certeza um livro extraordinário. Tentarei, contudo, resumi-la nesta página a que tenho direito, nesta obra que também se arvora em infindável. Deveis estar neste momento com elevadas expetativas acerca de mim. Estou habituado a isso. À minha visão as pessoas apressam-se. Sou um bispote detentor de um inconfundível acento inglês e estou em casa dos Marqueses há muitas gerações. Já era o favorito da Marquesa, a velha, e agora caí nas graças do atual Sr. Marquês, que era muito afeiçoado à Senhora sua mãe. Não sei se é por causa disso, mas sinto-me acarinhado. E de tal forma o sou, que a Sra. Marquesa, a nova, não consegue esconder os ciúmes. Pois é, quem rouba um filho a sua mãe nunca se redime da culpa, nem da punição. Sorride sempre que oiçais, a minha nora gosta muito de mim, ou, dou-me muito bem com a minha sogra. Sorride. Sou eu que recorda aos novos, aos que pretendem refrescar o património genético desta família, que bem podem tentar, mas a signa deste clã foi traçada há muitas gerações, por guerreiros encabelados em cima de cavalos, e nada há a fazer. Podem trazer nome ou fortuna, mas será só uma achega, um fingimento de renovação. Por isso, quando o Sr. Marquês me coloca em destaque, em cima da sua secretária, a Sra. Marquesa não se consegue conter e alvitra, ao menos pode colocar o bispote no chão. O Sr. Marquês, homem treinado nas artes da caça, e que sabe que bicho que não mexe é bicho que prevalece, diz, é-me mais conveniente para colocar a cinza do charuto. A Sra. Marquesa, a nova, não é mulher de guerras abertas, pelo que é que pela calada que se dirige ao escritório do Sr. Marquês. Deixai então dar-vos uma nota sobre estes momentos a sós, sem testemunhas, agora que a Sra. Marquesa, a velha, já cá não está para lhe poder confidenciar dos tratos de que sou vítima. A sua face perde a candura que a Sra. Marquesa, a nova, sabe tão bem cultivar. Pega-me pela asa, com repugnância, e leva-me a bambolear até ao chão, sem a dignidade a que me habituei com a Sra. Marquesa, a velha. Mas a memória de sua mãe continua bem presente em seu filho, pelo que assim que regressa ao prazer do seu charuto, o Sr. Marquês pega em mim com ambas as mãos e recoloca-me no lugar a que tenho direito. Nada tranquiliza mais para uma mãe que a satisfação do seu filho. É, contudo, sol de pouca dura pois a Sra. Marquesa, sabedora da estratégia do Sr. Marquês prepara-se para a nova investida e logo sugere, porque não oferece o bispote ao seu companheiro de charuto, o Dr. Galvão. Que desaforo, um republicano.