sábado, 14 de janeiro de 2017

Intimidade – Olímpia

O ego vibrante de Olímpia provoca-lhe minúsculas fissuras. Naquele dia, quando Olímpia regressou a casa, Hilário percebeu logo. Quem é que ela pensa que é? A Marquesa. O corpo de Olímpia perde limpidez devido à ressonância provocada pela palavra. Marquesa. Hilário sente que sabe a causa. Só pode ser o imbecil do Mouro. Nunca deveria ter intercedido por ele ao Morgado. Põe-se com aqueles ares. Exala Olímpia aumentando a vibração, e porque está em intimidade junta-lhe, deve ser porque natruca. Agora Olímpia ri, numa segurança de fora para dentro. Não fiques assim mulher. Apazigua Hilário, pois sabe que estes sentimentos trazem más consequências, nós que uma vez dados dificilmente se desatam. Até percebo o Marquês, que interesse pode ter aquela cabeleira emproada. Esquiva-se Olímpia. Vais ver que não é o que parece. Se calhar nem sequer te estava a ver. Cumprimentou-te? Pergunta-lhe Hilário, procurando que mude de frequência. Aquela múmia só saúda quando lhe apetece. Retoma Olímpia após uns instantes estática. Vais ver que não. Insiste Hilário. Mas ninguém lhe diz o que ela realmente é? Questiona-se Olímpia parando subitamente de vibrar. Sabes lá se ainda não virá a necessitar de nós. Como que lhe promete Hilário. Que sabes tu homem? Olímpia recobra nitidez. Pois é. Vós que menosprezais o poder da intimidade, que dizeis, a intimidade é a sarjeta das queixas, ponde aqui os ouvidos. É na intimidade que se lambem as feridas, não numa comiseração sem sentido, mas com vista a criarem crosta. Todos os grandes monumentos começaram assim, num desabafo entre dois seres que se constroem para fora. Sim, existe intimidade num monumento. Há a tendência de os associar à coisa pública e como tal incólumes às intempéries, construídos com uma transparência representativa dos valores que norteiam uma sociedade. Sem a humidade do bafo. Mas as coisas são como são e mesmo os monumentos necessitam de cuidado para não se virem a tornar objeto da arqueologia. Por isso, quem me julga recatada, a meu canto, fadada para o chá e a velhice, e nesse juízo pressupõe pequenez, está muito enganado acerca da minha mais valia. Quem me desconsidera são os tolos e os ingénuos e eu sei o embasbacamento que as grandes obras provocam nos primeiros e o seu efeito penetrante e mobilizador nos segundos. De facto, pouco os distingue, pois um tolo é um ingénuo volúvel onde o enlevo não solidifica. E, é, ironicamente, para esses pobres coitados que os monumentos são construídos, na intimidade. Mas, sim, concedo que há intimidades e intimidades. Eu sou das que edificam, construída por desconfortos fortalecidos num forte sentido de injustiça. Outras que eu por aí vejo, instaladas na segurança dos seus palácios, tornaram-se moles, definham na procura do bem e, por isso, tornam-se permeáveis ao endrominar. Não é sem um ligeiro calafrio que esta imagem me ocorre, pois pressinto que este é o nosso yin-yang, a saliva que cura é o veneno que destrói civilizações, e, talvez, nas futuras traduções da Bíblia o Apocalipse ocorrerá no dia em que se grave a intimidade.

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