domingo, 15 de janeiro de 2017

Ermita – Pinote

Antes fosse numa ermida, mas não existe ermida com ermita pois esta é construída a posteriori, como remediação, para conforto dos crentes. Por isso, talvez um dia se venha a fazer uma canção, ou uma estátua, ao Pinote, mas, agora, quando lhe disseram, foge que o Hilário vem por ti, coube-lhe em sorte um canto semi-telhado neste casebre em ruínas. Nem sequer se pode dizer que tenha sido uma escolha afortunada. No cimo do monte a vista é boa, mas a fuga está condenada ao fracasso devido à falta de arvoredo ou irregularidades no terreno em volta. Talvez seja esta a sina dos ermitas, a inutilidade prática da clarividência. E quero acentuar, prática, pois poderá observar com grande antecipação o aproximar dos guardas, vê-los avançar aos solavancos e imaginar mesmo as botas pretas arrastadas pelos puxões dos cães, e quedar-se ali numa paralisia extática, um luxo filho da falta de alternativa. Mas porque é que um comunista se deixa levar para o alto de um monte em vez de procurar os camaradas e entrar para a clandestinidade. Primeiro, o aviso não veio da pessoa indicada, depois, a filha recém-nascida impeliu-o a ficar por perto. Por isso está aqui, como um ermita, num isolamento sem propósito, que vai do despontar do sol de um lado ao mergulhar do outro, sob a capa estarrecedora do silêncio quente de Agosto, até que a noite chega. É então que de forma concertada os mais insuspeitos seres, que sob o sol optaram por passar despercebidos, se enchem de razões que já não podem calar. Pinote, que sempre foi avesso ao silêncio, e ainda mais ao apagamento do ser, passa os dias num torpor endoidecido de homem remetido a uma toca como um bicho cauteloso. Mas é à noite que se manifesta o seu destrambelhamento de ermita, sob um céu estrelado que os bichos sentem ser o seu palco. Então, Pinote presencia uma peça encenada pela natureza. Sapos que se aventuram entre recantos de humidade param para o fitar com curiosidade. Ficam-se frente a frente, fitando-se longamente, ainda que a noite não seja fiel na marcação do tempo, e em Pinote a sua noção se tenha desregulado devido à quase ausência de vida social. Nestas suspensões, os mais variados insetos vão permeando o diálogo silencioso com interjeições que o enriquecem de argumentos e razões. Não é fácil para um homem jovem, habituado a travar-se de razões, ver-se remetido a diálogos onde parece ter uma capacidade de intervenção diminuta, como que um mero figurante, ainda que de um forte simbolismo, mas onde a sua vontade não conta. Inicialmente ainda se revoltou. Emitiu sons e fez gestos que forçavam o silêncio à sua volta. Mas passado o assombro inicial, logo regressavam com redobrada força os ditos e não ditos, onde ele começou a sentir comentários desdenhosos à sua atitude. A falta de um claro oponente que pudesse frontalmente questionar levou-o, pouco a pouco, a afundar-se numa letargia sonolenta em que esperava pelo anunciar da claridade e a chegada do rapaz que lhe trazia a comida. Podia então saciar a sede com água fresca e mordiscar o pão e o queijo que Deolinda colocava na cesta.

Sem comentários:

Enviar um comentário