sábado, 28 de janeiro de 2017

Criancinhas – Pinote

O povo pode não entender os males do comunismo mas percebe com certeza o horror de se comerem criancinhas. Incrédulos? Sabei que esta foi a introdução que Hilário teve na formação em luta anti subversiva. Direis, exemplo típico de um anticomunismo primário. Mas isso sois vós que sabeis ler. O comunismo é um vírus concebido por mentes superiores para grassar entre os pobres de imaginação. Sim, disse imaginação, não instrução. O comunismo é redução da imaginação ao grau zero da expetativa. Um chato sonho de um mundo novo. Antes 72 virgens, para já não falar das delícias de Twin Peaks. Por isso o antídoto apenas pode recorrer às mesmas armas, mas em maior dose. Para quê imaginar um mundo novo se se lhe pode contrapor volúpias, enredos, arrepios. Isso sim, isso será capaz de prender o povo. Imaginai só todo o prazer que está nas entrelinhas, mesmo quando lá nada está, especialmente quando lá nada está. Jogada de mestre esta da CIA quando escreveu este manual de luta anti subversiva, de que a versão portuguesa é já uma tradução da versão em língua espanhola, concebida para as traseiras da América. Assim, logo que soube do desaparecimento de Pinote, Hilário passou a mensagem, os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço. Andava desconfiado que ele não andaria longe e todo o corpo pede pão para a boca. Para o Aires, o rapazola que andava nessa altura pelos seus catorze anos, e que até nem tinha esse apelido, mas que assim ficou devido a uma queda que deu num poço, que o deixou meio aparvalhado, pelo que lhe diziam com frequência, o fedelho parece que anda nos aires, e tão verdadeiro e intenso era o transtorno que veio mesmo mais tarde a dar esse nome de direito a seus filhos. Mas dizia eu, narrador que me quero distante, pois tendo este pequeno relato laivos de pastorícia e homens transtornados, sinto o ímpeto de me inspirar no grande Cervantes e escrever com pena de ironia as misérias terrestres. Dizia eu, que foi precisamente este garoto, cujo pai foi ao longo dos anos trocando a pancada na mulher pelo entupimento em vinho. Dizia eu, que foi pelo seu desnorte, por gostar de andar pelos campos a desoras, pelos poucos cuidados que os pais lhe tinham, que Deolinda o escolheu para todas as madrugadas o equipar com a cesta e enviar à procura do seu marido. Imaginai agora, e deixarei quase tudo à vossa imaginação, imaginai o rapaz frente a frente com o Pinote, o rapaz com os seus aires, o Pinote retornado de uma querela filosófica com todos os animais da natureza. Imaginai o miúdo a estender a cesta com os olhos esparvoados, não fixando o Pinote, e perguntando, tu és comunista. Imaginai agora o sol a despontar de um lado, ainda o escuro da noite do outro, Pinote com o fedor de uns dias, porque perguntas isso, são as primeiras palavras que soletra para outro ser humano desde o dia de ontem. Imaginai a resposta do Aires, o Hilário diz que os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço, com os olhos no chão à espera que algo aconteça. Imaginai agora o miúdo de regresso com a cesta vazia, e o Pinote ao vê-lo de costas murmura, filhos da puta. Imaginai.

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