sábado, 21 de janeiro de 2017

Confissão – Marquesa

Não existe maior responsabilidade do que a da intermediação. Somos como o conduto entre duas fatias de pão. Amaciamos-lhes as superfícies para que possam assentar um a sobre a outra em harmonia. E as arestas são tantas. Especialmente quando somos o veículo de comunicação de dois seres tão distintos, ainda que ansiando a se verem e reverem como sendo um só, como um pai e um filho. É por isso trabalho de embaixador, que esvai sentimentos e emoções em palavras suaves, quase neutras ao ouvido, para obviar a precipitações. Sei que há por aí quem argumente da nossa inutilidade, e até insinue algum interesse nas custas do perdão. Idiotas que não fazem a mínima ideia de quem está do outro lado. Pensam que é como eles. Que o podem tutear. Sabes, ontem comi demais, eu sei que não devia, é a gula, mas os meus olhos e estômago conluiaram-se contra mim, no que suspeito ser um pacto velado com o mafarrico que teima em me surgir travestido com os odores da chanfana, e do qual eu sou, igualmente, o principal beneficiário e lesado. Desgraçados. Com certeza nunca visitaram a Capela Sistina. Trazer a chanfana junto a ele é como enviar numa nave não tripulada à procura de inteligência extraterrestre uma imperial e um pires de tremoços. Entendeis agora, homens da razão? Não vedes como ele se espraia pelo teto, magnificente. Achais que aquele corpo pode ter estômago? Ignorais que a combustão deteriora. Está ali há centenas de anos, sereno, impassível, belo. A chanfana é um insulto. Atiça-se-nos apetitosa, mas fria não sabe a nada. Obra do diabo. Como são precárias as coisas deste mundo. Por isso devemos ser sensíveis da sua sensibilidade. Essa é a missão da confissão. Acho que agora percebereis melhor os meus cuidados assim que a Senhora Marquesa se ajoelhou. Vi logo o que lhe ia pela alma. Já tinha ouvido alguns zunzuns. Querida senhora. Tão treinada em intermediações, as mais das vezes a ele entreguei o que dela recebi, tal como recebi, sem a necessidade de um reparo, ou não houvesse nobreza na palavra da nobreza. Mas hoje temi pelo pior. A boca do povo emporcalha. É necessário ter estômago para não sucumbir, e séculos de ascensão torna-nos frágeis às coisas mundanas. Meu caro Senhor Prior, há em mim uma irritação permanente que não consigo afastar. Porquê, minha querida senhora, que vos traz assim? Não sei, mas sei que o povo fala. Deixai o povo falar, quereis maior prova de penitência? Sim, eu sei que é isso que ele de mim espera, e isso eu lhe quero dar, mas por vezes escapa à minha vontade e fraquejo. Sois uma santa, de uma linhagem única. Que posso fazer com este tormento? Sede forte, pois ele colocou em vós este desafio e em vós tem os olhos postos. Mas, meu estimado guia, receio não poder estar à altura da missão que ele a mim atribuiu. Tendes sua compaixão e podeis ter a certeza que sereis um exemplo. Sim, aceito, mas se a sua vontade fosse outra também não me importava. Pois, aqui tendes a importância da confissão, mesmo das mais preparadas criaturas, aquelas que poderiam privar com ele, temos, por vezes, de deixar cair algumas intenções por terra.

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