domingo, 29 de janeiro de 2017

Recheio – Marquesa

Muito se tem escrito sobre a educação e quase sempre a principal questão que se coloca é como deve ocorrer a aprendizagem para além do ninho. A resposta mais elaborada foi dada pelo Grand Tour, em que o jovem gentil-homem inglês viajava pela europa continental, em particular na Itália renascentista, onde se imergia em cultura, e não só. Nesses tempos a formação de um homem fazia-se ao ritmo do cavalgar, sem o bulício do comboio que engole a paisagem. Mas qual o impacto que o Grand Tour pode ter neste lugarejo do Alentejo, neste século que já não se compadece com viagens que demoram anos? Nenhum, não fosse a Sra. Marquesa numa noite de insónia ter visto o pequeno Aires sair de madrugada com uma cesta em direção aos campos. Letrada, pela leitura de obras neoclássicas de viagens, e estando ciente de como estas são determinantes na formação do caráter, logo procurou similaridades entre as escapadas sub-reptícias do miúdo esfarrapado e as epopeias dos gentis-homens. Encheu-se por isso tanto de cuidados como de suspeitas e logo pela manhã resolveu dar uma volta pelas encostas onde sabia que o miúdo costumava andar aos pássaros, mas não sem antes se munir de mim, que estava repousado numa cristaleira entre os meus irmãos. Quem sou eu afinal? A minha aparência pouco me interessa a não ser para ajudar a chegar aquilo que realmente sou, o recheio. Claro que por fora tenho uma prata vermelha, que quando desembrulhada mostra o chocolate, mas isso não é nada até me meterem na boca e eu romper por entre o chocolate derretido. Venho concebido para libertar um pequeno ardor doce que surpreende o próprio chocolate. Agora que já sabeis a artimanha de que sou feito, ouvi. Estava o Aires agachado atrás de um sobreiro, e tão absorto nos pássaros que nem deu pela chegada da Marquesa. Que andas à procura? O Aires volta-se. Olha atarantado, quer porque não fosse hábito ela dirigir-lhe a palavra, quer porque lhe parece imponente, assim vista de baixo. Na ausência de resposta estende-me e diz, toma, olha o que tenho para ti. O Aires olha-me com fascínio. Sabe que por detrás da prata deve haver coisa boa. Do chocolate sabia da existência e até já tinha provado uma ou outra vez, por isso a alegria quando me tirou a primeira capa foi compreensível, mas uma vez na boca, quando me soltei sobre a língua, a expressão foi da surpresa da coisa nova, que a Marquesa logo aproveita. Sabes o que são os comunistas? A chegada simultânea àquele ser de uma teoria resultante de milhares de anos de conceção filosófica, enquanto na boca do rapaz eu me desfaço, evidencia um cuidado pedagógico a que não será alheio as leituras de viagens da Sra. Marquesa. Sabes o que o Hilário disse que eles fazem? A resposta do Aires, comigo na boca, é de um entendimento sem palavras. Sei quem vais procurar pelas manhãs. Arriscou a Marquesa. O rapaz assente, não sei se por mim, se porque percebeu a pergunta. A Marquesa dá-se por entendida. Quando o encontrares diz-lhe do que são capazes os comunistas, mas não lhe fales de mim.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Criancinhas – Pinote

O povo pode não entender os males do comunismo mas percebe com certeza o horror de se comerem criancinhas. Incrédulos? Sabei que esta foi a introdução que Hilário teve na formação em luta anti subversiva. Direis, exemplo típico de um anticomunismo primário. Mas isso sois vós que sabeis ler. O comunismo é um vírus concebido por mentes superiores para grassar entre os pobres de imaginação. Sim, disse imaginação, não instrução. O comunismo é redução da imaginação ao grau zero da expetativa. Um chato sonho de um mundo novo. Antes 72 virgens, para já não falar das delícias de Twin Peaks. Por isso o antídoto apenas pode recorrer às mesmas armas, mas em maior dose. Para quê imaginar um mundo novo se se lhe pode contrapor volúpias, enredos, arrepios. Isso sim, isso será capaz de prender o povo. Imaginai só todo o prazer que está nas entrelinhas, mesmo quando lá nada está, especialmente quando lá nada está. Jogada de mestre esta da CIA quando escreveu este manual de luta anti subversiva, de que a versão portuguesa é já uma tradução da versão em língua espanhola, concebida para as traseiras da América. Assim, logo que soube do desaparecimento de Pinote, Hilário passou a mensagem, os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço. Andava desconfiado que ele não andaria longe e todo o corpo pede pão para a boca. Para o Aires, o rapazola que andava nessa altura pelos seus catorze anos, e que até nem tinha esse apelido, mas que assim ficou devido a uma queda que deu num poço, que o deixou meio aparvalhado, pelo que lhe diziam com frequência, o fedelho parece que anda nos aires, e tão verdadeiro e intenso era o transtorno que veio mesmo mais tarde a dar esse nome de direito a seus filhos. Mas dizia eu, narrador que me quero distante, pois tendo este pequeno relato laivos de pastorícia e homens transtornados, sinto o ímpeto de me inspirar no grande Cervantes e escrever com pena de ironia as misérias terrestres. Dizia eu, que foi precisamente este garoto, cujo pai foi ao longo dos anos trocando a pancada na mulher pelo entupimento em vinho. Dizia eu, que foi pelo seu desnorte, por gostar de andar pelos campos a desoras, pelos poucos cuidados que os pais lhe tinham, que Deolinda o escolheu para todas as madrugadas o equipar com a cesta e enviar à procura do seu marido. Imaginai agora, e deixarei quase tudo à vossa imaginação, imaginai o rapaz frente a frente com o Pinote, o rapaz com os seus aires, o Pinote retornado de uma querela filosófica com todos os animais da natureza. Imaginai o miúdo a estender a cesta com os olhos esparvoados, não fixando o Pinote, e perguntando, tu és comunista. Imaginai agora o sol a despontar de um lado, ainda o escuro da noite do outro, Pinote com o fedor de uns dias, porque perguntas isso, são as primeiras palavras que soletra para outro ser humano desde o dia de ontem. Imaginai a resposta do Aires, o Hilário diz que os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço, com os olhos no chão à espera que algo aconteça. Imaginai agora o miúdo de regresso com a cesta vazia, e o Pinote ao vê-lo de costas murmura, filhos da puta. Imaginai.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Confissão – Marquesa

Não existe maior responsabilidade do que a da intermediação. Somos como o conduto entre duas fatias de pão. Amaciamos-lhes as superfícies para que possam assentar um a sobre a outra em harmonia. E as arestas são tantas. Especialmente quando somos o veículo de comunicação de dois seres tão distintos, ainda que ansiando a se verem e reverem como sendo um só, como um pai e um filho. É por isso trabalho de embaixador, que esvai sentimentos e emoções em palavras suaves, quase neutras ao ouvido, para obviar a precipitações. Sei que há por aí quem argumente da nossa inutilidade, e até insinue algum interesse nas custas do perdão. Idiotas que não fazem a mínima ideia de quem está do outro lado. Pensam que é como eles. Que o podem tutear. Sabes, ontem comi demais, eu sei que não devia, é a gula, mas os meus olhos e estômago conluiaram-se contra mim, no que suspeito ser um pacto velado com o mafarrico que teima em me surgir travestido com os odores da chanfana, e do qual eu sou, igualmente, o principal beneficiário e lesado. Desgraçados. Com certeza nunca visitaram a Capela Sistina. Trazer a chanfana junto a ele é como enviar numa nave não tripulada à procura de inteligência extraterrestre uma imperial e um pires de tremoços. Entendeis agora, homens da razão? Não vedes como ele se espraia pelo teto, magnificente. Achais que aquele corpo pode ter estômago? Ignorais que a combustão deteriora. Está ali há centenas de anos, sereno, impassível, belo. A chanfana é um insulto. Atiça-se-nos apetitosa, mas fria não sabe a nada. Obra do diabo. Como são precárias as coisas deste mundo. Por isso devemos ser sensíveis da sua sensibilidade. Essa é a missão da confissão. Acho que agora percebereis melhor os meus cuidados assim que a Senhora Marquesa se ajoelhou. Vi logo o que lhe ia pela alma. Já tinha ouvido alguns zunzuns. Querida senhora. Tão treinada em intermediações, as mais das vezes a ele entreguei o que dela recebi, tal como recebi, sem a necessidade de um reparo, ou não houvesse nobreza na palavra da nobreza. Mas hoje temi pelo pior. A boca do povo emporcalha. É necessário ter estômago para não sucumbir, e séculos de ascensão torna-nos frágeis às coisas mundanas. Meu caro Senhor Prior, há em mim uma irritação permanente que não consigo afastar. Porquê, minha querida senhora, que vos traz assim? Não sei, mas sei que o povo fala. Deixai o povo falar, quereis maior prova de penitência? Sim, eu sei que é isso que ele de mim espera, e isso eu lhe quero dar, mas por vezes escapa à minha vontade e fraquejo. Sois uma santa, de uma linhagem única. Que posso fazer com este tormento? Sede forte, pois ele colocou em vós este desafio e em vós tem os olhos postos. Mas, meu estimado guia, receio não poder estar à altura da missão que ele a mim atribuiu. Tendes sua compaixão e podeis ter a certeza que sereis um exemplo. Sim, aceito, mas se a sua vontade fosse outra também não me importava. Pois, aqui tendes a importância da confissão, mesmo das mais preparadas criaturas, aquelas que poderiam privar com ele, temos, por vezes, de deixar cair algumas intenções por terra.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ermita – Pinote

Antes fosse numa ermida, mas não existe ermida com ermita pois esta é construída a posteriori, como remediação, para conforto dos crentes. Por isso, talvez um dia se venha a fazer uma canção, ou uma estátua, ao Pinote, mas, agora, quando lhe disseram, foge que o Hilário vem por ti, coube-lhe em sorte um canto semi-telhado neste casebre em ruínas. Nem sequer se pode dizer que tenha sido uma escolha afortunada. No cimo do monte a vista é boa, mas a fuga está condenada ao fracasso devido à falta de arvoredo ou irregularidades no terreno em volta. Talvez seja esta a sina dos ermitas, a inutilidade prática da clarividência. E quero acentuar, prática, pois poderá observar com grande antecipação o aproximar dos guardas, vê-los avançar aos solavancos e imaginar mesmo as botas pretas arrastadas pelos puxões dos cães, e quedar-se ali numa paralisia extática, um luxo filho da falta de alternativa. Mas porque é que um comunista se deixa levar para o alto de um monte em vez de procurar os camaradas e entrar para a clandestinidade. Primeiro, o aviso não veio da pessoa indicada, depois, a filha recém-nascida impeliu-o a ficar por perto. Por isso está aqui, como um ermita, num isolamento sem propósito, que vai do despontar do sol de um lado ao mergulhar do outro, sob a capa estarrecedora do silêncio quente de Agosto, até que a noite chega. É então que de forma concertada os mais insuspeitos seres, que sob o sol optaram por passar despercebidos, se enchem de razões que já não podem calar. Pinote, que sempre foi avesso ao silêncio, e ainda mais ao apagamento do ser, passa os dias num torpor endoidecido de homem remetido a uma toca como um bicho cauteloso. Mas é à noite que se manifesta o seu destrambelhamento de ermita, sob um céu estrelado que os bichos sentem ser o seu palco. Então, Pinote presencia uma peça encenada pela natureza. Sapos que se aventuram entre recantos de humidade param para o fitar com curiosidade. Ficam-se frente a frente, fitando-se longamente, ainda que a noite não seja fiel na marcação do tempo, e em Pinote a sua noção se tenha desregulado devido à quase ausência de vida social. Nestas suspensões, os mais variados insetos vão permeando o diálogo silencioso com interjeições que o enriquecem de argumentos e razões. Não é fácil para um homem jovem, habituado a travar-se de razões, ver-se remetido a diálogos onde parece ter uma capacidade de intervenção diminuta, como que um mero figurante, ainda que de um forte simbolismo, mas onde a sua vontade não conta. Inicialmente ainda se revoltou. Emitiu sons e fez gestos que forçavam o silêncio à sua volta. Mas passado o assombro inicial, logo regressavam com redobrada força os ditos e não ditos, onde ele começou a sentir comentários desdenhosos à sua atitude. A falta de um claro oponente que pudesse frontalmente questionar levou-o, pouco a pouco, a afundar-se numa letargia sonolenta em que esperava pelo anunciar da claridade e a chegada do rapaz que lhe trazia a comida. Podia então saciar a sede com água fresca e mordiscar o pão e o queijo que Deolinda colocava na cesta.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Intimidade – Olímpia

O ego vibrante de Olímpia provoca-lhe minúsculas fissuras. Naquele dia, quando Olímpia regressou a casa, Hilário percebeu logo. Quem é que ela pensa que é? A Marquesa. O corpo de Olímpia perde limpidez devido à ressonância provocada pela palavra. Marquesa. Hilário sente que sabe a causa. Só pode ser o imbecil do Mouro. Nunca deveria ter intercedido por ele ao Morgado. Põe-se com aqueles ares. Exala Olímpia aumentando a vibração, e porque está em intimidade junta-lhe, deve ser porque natruca. Agora Olímpia ri, numa segurança de fora para dentro. Não fiques assim mulher. Apazigua Hilário, pois sabe que estes sentimentos trazem más consequências, nós que uma vez dados dificilmente se desatam. Até percebo o Marquês, que interesse pode ter aquela cabeleira emproada. Esquiva-se Olímpia. Vais ver que não é o que parece. Se calhar nem sequer te estava a ver. Cumprimentou-te? Pergunta-lhe Hilário, procurando que mude de frequência. Aquela múmia só saúda quando lhe apetece. Retoma Olímpia após uns instantes estática. Vais ver que não. Insiste Hilário. Mas ninguém lhe diz o que ela realmente é? Questiona-se Olímpia parando subitamente de vibrar. Sabes lá se ainda não virá a necessitar de nós. Como que lhe promete Hilário. Que sabes tu homem? Olímpia recobra nitidez. Pois é. Vós que menosprezais o poder da intimidade, que dizeis, a intimidade é a sarjeta das queixas, ponde aqui os ouvidos. É na intimidade que se lambem as feridas, não numa comiseração sem sentido, mas com vista a criarem crosta. Todos os grandes monumentos começaram assim, num desabafo entre dois seres que se constroem para fora. Sim, existe intimidade num monumento. Há a tendência de os associar à coisa pública e como tal incólumes às intempéries, construídos com uma transparência representativa dos valores que norteiam uma sociedade. Sem a humidade do bafo. Mas as coisas são como são e mesmo os monumentos necessitam de cuidado para não se virem a tornar objeto da arqueologia. Por isso, quem me julga recatada, a meu canto, fadada para o chá e a velhice, e nesse juízo pressupõe pequenez, está muito enganado acerca da minha mais valia. Quem me desconsidera são os tolos e os ingénuos e eu sei o embasbacamento que as grandes obras provocam nos primeiros e o seu efeito penetrante e mobilizador nos segundos. De facto, pouco os distingue, pois um tolo é um ingénuo volúvel onde o enlevo não solidifica. E, é, ironicamente, para esses pobres coitados que os monumentos são construídos, na intimidade. Mas, sim, concedo que há intimidades e intimidades. Eu sou das que edificam, construída por desconfortos fortalecidos num forte sentido de injustiça. Outras que eu por aí vejo, instaladas na segurança dos seus palácios, tornaram-se moles, definham na procura do bem e, por isso, tornam-se permeáveis ao endrominar. Não é sem um ligeiro calafrio que esta imagem me ocorre, pois pressinto que este é o nosso yin-yang, a saliva que cura é o veneno que destrói civilizações, e, talvez, nas futuras traduções da Bíblia o Apocalipse ocorrerá no dia em que se grave a intimidade.