domingo, 11 de dezembro de 2016

Mangual – Hilário

Passar de camponês a feitor é um privilégio, parece que o mundo sorri. Deixar de fixar o chão sempre à cata do que a terra dá, para olhar os homens de frente, dizer-lhes olhos nos olhos, não faças ronha no malhar, ó Zé, e eles baixam a cabeça para o pau estirado entre o grão, vergam o tronco para regressar ao vaivém de braços, como que se auto punindo por terem ousado querer escapar à terra. Para o feitor é uma libertação a consciência deste mundo de redomas geradas pelos movimentos do mangual. Pode até enternecer-se, por força da memória, com as gravuras que a sobrevivência desenha nas suas paredes, mas respeita o desígnio de uma ordem que, talvez por o ter favorecido, não se questiona. Mas, se assim foi com o pai de Hilário, não o foi para o filho, que cresceu a ver esses homens estranhos, porque não é um deles, em volta da casa, encerrados nos maguais, a bater à porta com a cabeça dobrada e o chapéu na mão, pedindo instruções, apresentando uma queixa, ou procurando mesmo granjear uma opinião sobre uma disputa para regressar, depois, revigorados à refrega. Em vez do dom da graça, sentiu-se dilacerado por uma injustiça, que contrariamente ao que seria de esperar, não surgiu da revolta sobre a condição dos camponeses, mas sim da sua. Sentia-a à mesa, quando o pai se queixava de mais uma intervenção do Dr. Galvão porque a jorna não era paga a um mandrião. Revoltava-se, pois, a amizade do Sr. Marquês pelo Dr. Galvão atribuía ao feitor a causa dos problemas e a obrigação de os solucionar. O pai lá resolvia tudo a bem, comprometendo a sua honra, este é tormento dos que servem um homem emocional, e, muitas vezes, mesmo contra o que achava serem os interesses do patrão. Já o filho, desenvolveu uma exaltação dormente na qual não há sequer um pestanejar. Instruiu-se na arte da espera. Começou cedo. Com os filhos dos camponeses, prontos a reforçar os argumentos com os punhos, aprendeu que, pela gestão das erupções alheias, dois pode ser menos do que um. Foi assim construindo um mundo baseado num denominador comum gerador de pequenas quantidades. Como a aprendizagem do mangual, esmigalhando ao bater forte no chão, concebeu que o universo seria apenas a combinação de dois ou três princípios básicos, e, se no pintor esta revelação serve para construir ilusões, em Hilário resultou no cuidado de reduzir os fenómenos ao ínfimo, ainda que tendo como paga o amargo desengano de quem chega sempre ao mesmo. Talvez para não se ver igual aos que batiam à porta de seu pai, fechados numa mistura de pó e palha, engalanou-se com a ideia de um outro filho de feitor a quem por devoção não quis reduzir ao absurdo. E, não existe dever mais arrebatador que o nascido da dedicação de um homem pela sua projeção num outro que imagina grande. Por isso, se hierarquicamente Hilário responde ao capitão Simões, navega com um desprezo solicito as ordens e opiniões daqueles que o cercam. Sabe que quando chega a hora do chá, Simões, Marquês, Galvão, Macedo, são mesma lavra e por isso apenas responde ao Senhor Doutor.

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