Falam mal da cunha, mas eu sou apenas uma manifestação da inteligência emocional. Posso é ser mais ou menos pontiaguda. Isso sim. Diria que uma cunha predominantemente aguçada tem um problema de ética. Mas não aquela que não fere, que é mesmo até um pouco aveludada, e que vai entrando com pequenas pancadinhas, veja lá o que pode fazer, sabe bem que eu não sou destas coisas. E, enquanto me vão vendo abrindo caminho, dão loas com um, sempre agradecido, já sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, muito obrigado, mas eu não necessito de nada, qual quê, a vida dá as suas voltas, mais tarde ou mais cedo, sabe-se lá, enfim, mas já sabe que pode contar comigo, quer para a coisa ela própria, ou para levar o seu problema a alguém, que, mais do que eu o consiga resolver, por amor de Deus, sabe bem que nunca o iria incomodar com tais coisas. Uma lengalenga. Um prolongar do prazer do catar, em que o esborrachar de microscópicos seres serve de escusa para a troca de pequenas carícias com a ponta dos dedos. Mas eu não fui concebido assim, lembro-me bem. Foi no intervalo do bridge em casa dos marqueses, quando as senhoras os interromperam para o chá, que o Sr. Marquês chamou à parte o Dr. Galvão para lhe mostrar uns charutos que acabou de receber de Cuba, deixando o capitão Simões com o Dr. Macedo, cujas enraizadas opções ideológicas incapacitaram para o desfrute de alguns dos prazeres da vida, à conversa sobre os recentes problemas com os ceifeiros. Meu caro José disse-lhe o Marquês, ando preocupado com um rapaz que casou com uma criada aqui da casa. Ela está cá desde pequena, é quase da família, sabe, e agora com uma filha acabada de nascer. Corre por aí o rumor que o Hilário Mendes anda de olho nele. Se ocorrer algo a rapariga irá ter consigo, mas peço-lhe a máxima descrição neste assunto. Como vedes não sou uma cunha qualquer, sou um jeito que um monárquico pede a um republicano para ajudar um comunista. Dito de outra forma, aquela como gosto de me ver ao espelho, visto-me com um veludo azul monárquico, tenho a têmpera do aço comunista por dentro e sou ajudada a entrar com a retórica republicana, eu sou única. Concebida nessa tarde de domingo de final de junho no gabinete do Sr. Marquês, enquanto na varanda o Dr. Macedo, juiz na comarca, pede ao capitão Simões que não hesite mais, se cada um cumprir o seu dever tudo correrá bem, o Hilário que não esteja com mais delongas. Como sou diferente desta combinação de circunstância, tão institucional, tão pequenina, como este Estado Novo, feito da uniformidade da raça, modesto e sem cor, sem graça. Uma cunha escrava do dever, de gabinete, com a vida facilitada, nem sequer é uma verdadeira cunha, é o desenrolar de mecanismos instalados por onde passam outras, indistintas, mais uma apenas, sem a pujança, o dinamismo e o tormento das formas, que me dão um ímpeto de fantasia e de paixão, que me enleva e me deixa em arco, convencida do meu poder, que tudo irá correr bem, na verdade, na determinação, na justiça, na oratória, e que nunca, nunca, serei engavetada.
In 25 de abril sempre (2016)
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