sábado, 17 de dezembro de 2016

natruca – Marquesa

Se o verbo é fugaz, o substantivo perdura. Nasci, da boca do Hilário para o ouvido do Mouro, um verbo com o sujeito subentendido, por cautela do meu criador. Fiz-me frase na cabeça do Mouro e fui colocado na boca do Pinote para chegar ao ouvido da Marquesa. Tudo ficaria por aqui, mas entusiasmei-me com as minhas sete letras, n a t r u c a, o que levou a repetir-me com frequência. Era visto nos mais variados trejeitos de lábios. Desde o natruca serrado, próprio dos cautelosos, pronunciado com os olhos a atirar ao longe para garantir o segredo, ao natruca jovial e brincalhão em que os interlocutores se miram diretamente desafiando o sorriso à desgarrada. Não posso dizer que tenha percorrido mundo, pois os humanos apenas se interessam por aquilo que conhecem. Mas no lugarejo era já uma frase substantiva. Quando o Pinote passava eu era citado em uníssono, fosse por murmúrios ou por pensamentos. Não vos posso dizer o que sentia, pois era ainda uma criatura recente, e se dizem que esse é o período mais importante na formação de qualquer ser, não deixa de ser irónico o pouco que nos recordamos dele. Como vedes, se comecei por ser lexical, os meus sentidos brotaram do uso que me foi dado. Sou um verdadeiro filho da experiência. Se duvidais, procurai-me no dicionário e vede se me encontrais. Eu próprio lá fui de início. Sofria nessa altura a angústia dos filhos de pais incógnitos, afogueados na ideia que o caráter é hereditário. Do desconsolo de nem sequer encontrar uma raiz, que não fosse além do mundo mineral, qualquer coisa feita de sódio, resolvi aceitar o meu destino. Fui percebendo que o meu significado dependia do contexto. Como qualquer criança, fui um ser brincalhão. Repetido na taberna, quando o espírito ainda não foi substituído pelo vinho, num incitamento a mais um copo. Experienciei aí uma existência saltitona, amiga da camaradagem. Não preciso de dizer que gostamos de nos ver assim, e o Pinote também desfrutava, embora sem perceber porquê. Mas já quando passava a Sra. Marquesa tocava outra orquestra. Senti o desdém que na primeira oportunidade é atirado aos poderosos. A latente vingança que os rodeia, e que excecionalmente os pode levar à guilhotina ou ao pelotão de fuzilamento. Não gostei de me ver assim. Esqueci a jovialidade e senti-me ácido. Os mesmo que na taberna comigo gracejavam, quando o vinho tomava conta das suas entranhas retomavam a mim com a revolta com que num beco se insulta a parede em frente. E se eu não era indiferente imaginem a Sra. Marquesa que começou a imaginar-me nos lábios dos que a cercavam. Foi assim que um dia trocou um olhar com Olímpia, a mulher de Hilário. Não posso jurar que estivesse nesse momento na boca de Olímpia, mas isso é um pormenor. Aconteceu. Estava já convencido que a minha sina neste mundo era trazer a desventura quando cheguei ao ouvido do Sr. Padre. Aquele homem esboçou um olhar pausado e interrogativo quando me pronunciou, como que para medir a situação, natruca, e foi então que lhe ouvi, com uma paz na voz, própria dos homens de fé tranquila, santa senhora.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Mangual – Hilário

Passar de camponês a feitor é um privilégio, parece que o mundo sorri. Deixar de fixar o chão sempre à cata do que a terra dá, para olhar os homens de frente, dizer-lhes olhos nos olhos, não faças ronha no malhar, ó Zé, e eles baixam a cabeça para o pau estirado entre o grão, vergam o tronco para regressar ao vaivém de braços, como que se auto punindo por terem ousado querer escapar à terra. Para o feitor é uma libertação a consciência deste mundo de redomas geradas pelos movimentos do mangual. Pode até enternecer-se, por força da memória, com as gravuras que a sobrevivência desenha nas suas paredes, mas respeita o desígnio de uma ordem que, talvez por o ter favorecido, não se questiona. Mas, se assim foi com o pai de Hilário, não o foi para o filho, que cresceu a ver esses homens estranhos, porque não é um deles, em volta da casa, encerrados nos maguais, a bater à porta com a cabeça dobrada e o chapéu na mão, pedindo instruções, apresentando uma queixa, ou procurando mesmo granjear uma opinião sobre uma disputa para regressar, depois, revigorados à refrega. Em vez do dom da graça, sentiu-se dilacerado por uma injustiça, que contrariamente ao que seria de esperar, não surgiu da revolta sobre a condição dos camponeses, mas sim da sua. Sentia-a à mesa, quando o pai se queixava de mais uma intervenção do Dr. Galvão porque a jorna não era paga a um mandrião. Revoltava-se, pois, a amizade do Sr. Marquês pelo Dr. Galvão atribuía ao feitor a causa dos problemas e a obrigação de os solucionar. O pai lá resolvia tudo a bem, comprometendo a sua honra, este é tormento dos que servem um homem emocional, e, muitas vezes, mesmo contra o que achava serem os interesses do patrão. Já o filho, desenvolveu uma exaltação dormente na qual não há sequer um pestanejar. Instruiu-se na arte da espera. Começou cedo. Com os filhos dos camponeses, prontos a reforçar os argumentos com os punhos, aprendeu que, pela gestão das erupções alheias, dois pode ser menos do que um. Foi assim construindo um mundo baseado num denominador comum gerador de pequenas quantidades. Como a aprendizagem do mangual, esmigalhando ao bater forte no chão, concebeu que o universo seria apenas a combinação de dois ou três princípios básicos, e, se no pintor esta revelação serve para construir ilusões, em Hilário resultou no cuidado de reduzir os fenómenos ao ínfimo, ainda que tendo como paga o amargo desengano de quem chega sempre ao mesmo. Talvez para não se ver igual aos que batiam à porta de seu pai, fechados numa mistura de pó e palha, engalanou-se com a ideia de um outro filho de feitor a quem por devoção não quis reduzir ao absurdo. E, não existe dever mais arrebatador que o nascido da dedicação de um homem pela sua projeção num outro que imagina grande. Por isso, se hierarquicamente Hilário responde ao capitão Simões, navega com um desprezo solicito as ordens e opiniões daqueles que o cercam. Sabe que quando chega a hora do chá, Simões, Marquês, Galvão, Macedo, são mesma lavra e por isso apenas responde ao Senhor Doutor.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Cunha – Marquês

Falam mal da cunha, mas eu sou apenas uma manifestação da inteligência emocional. Posso é ser mais ou menos pontiaguda. Isso sim. Diria que uma cunha predominantemente aguçada tem um problema de ética. Mas não aquela que não fere, que é mesmo até um pouco aveludada, e que vai entrando com pequenas pancadinhas, veja lá o que pode fazer, sabe bem que eu não sou destas coisas. E, enquanto me vão vendo abrindo caminho, dão loas com um, sempre agradecido, já sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, muito obrigado, mas eu não necessito de nada, qual quê, a vida dá as suas voltas, mais tarde ou mais cedo, sabe-se lá, enfim, mas já sabe que pode contar comigo, quer para a coisa ela própria, ou para levar o seu problema a alguém, que, mais do que eu o consiga resolver, por amor de Deus, sabe bem que nunca o iria incomodar com tais coisas. Uma lengalenga. Um prolongar do prazer do catar, em que o esborrachar de microscópicos seres serve de escusa para a troca de pequenas carícias com a ponta dos dedos. Mas eu não fui concebido assim, lembro-me bem. Foi no intervalo do bridge em casa dos marqueses, quando as senhoras os interromperam para o chá, que o Sr. Marquês chamou à parte o Dr. Galvão para lhe mostrar uns charutos que acabou de receber de Cuba, deixando o capitão Simões com o Dr. Macedo, cujas enraizadas opções ideológicas incapacitaram para o desfrute de alguns dos prazeres da vida, à conversa sobre os recentes problemas com os ceifeiros. Meu caro José disse-lhe o Marquês, ando preocupado com um rapaz que casou com uma criada aqui da casa. Ela está cá desde pequena, é quase da família, sabe, e agora com uma filha acabada de nascer. Corre por aí o rumor que o Hilário Mendes anda de olho nele. Se ocorrer algo a rapariga irá ter consigo, mas peço-lhe a máxima descrição neste assunto. Como vedes não sou uma cunha qualquer, sou um jeito que um monárquico pede a um republicano para ajudar um comunista. Dito de outra forma, aquela como gosto de me ver ao espelho, visto-me com um veludo azul monárquico, tenho a têmpera do aço comunista por dentro e sou ajudada a entrar com a retórica republicana, eu sou única. Concebida nessa tarde de domingo de final de junho no gabinete do Sr. Marquês, enquanto na varanda o Dr. Macedo, juiz na comarca, pede ao capitão Simões que não hesite mais, se cada um cumprir o seu dever tudo correrá bem, o Hilário que não esteja com mais delongas. Como sou diferente desta combinação de circunstância, tão institucional, tão pequenina, como este Estado Novo, feito da uniformidade da raça, modesto e sem cor, sem graça. Uma cunha escrava do dever, de gabinete, com a vida facilitada, nem sequer é uma verdadeira cunha, é o desenrolar de mecanismos instalados por onde passam outras, indistintas, mais uma apenas, sem a pujança, o dinamismo e o tormento das formas, que me dão um ímpeto de fantasia e de paixão, que me enleva e me deixa em arco, convencida do meu poder, que tudo irá correr bem, na verdade, na determinação, na justiça, na oratória, e que nunca, nunca, serei engavetada.