segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Rapa - Joaninha

Pertenço ao grupo daqueles que, de esquecidos, precisam de ser pormenorizadamente descritos, como se estivessem agora a ser concebidos pela primeira vez. Primeiro que tudo a minha função. Tenho por objetivo arrebanhar os restos que se agarram às paredes dos recipientes onde se bateu uma massa que deve seguir viagem para a cozedura. São pedaços que, suspeitando do destino de fogo, tentam sorrateiramente ficar ao fresco, enquanto os seus irmãos vão dar com os costados a uma forma cheia a três quartos para deixar atuar a levedura. O meu aspeto é um pouco ridículo, confesso, quando empunhado na mão da cozinheira, passo mesmo por ser uma caricatura de rato, um pau esbranquiçado com duas orelhas de borracha. Mas é nestas orelhas que está a minha arte. Feitas de uma borracha dura que se agarra ao cabo para absorver a energia que se propaga das pontas pela pressão exercida sobre o recipiente. As pontas, essas sim, têm uma macieza sempre pronta para se ajustar a qualquer superfície que o recipiente possa vir a apresentar, desde que seja arredondada, claro, que para as retorcidas, feitas de arestas cortantes, está o Hilário. No palácio dos Marqueses fui recebido com desconfiança. Preferiam um Rei, evidentemente, daqueles que distribuem favores pela nobreza. Ainda assim, uma desconfiança mediada pela esperança. Talvez, após um período inicial, possam voltar os outros tempos, pensaram. Pelo meu ar afável tenho este dom de suscitar expetativas. Mas, uma vez instalado na minha gaveta, focado no meu objetivo, sistematicamente, dia a dia, não passo no exame do Sr. Marquês, que comenta à noite ao deitar, tire daí a ideia, ele traz uma agenda própria. A Sra. Marquesa, mulher que se habitou a ser pragmática, respondeu-lhe, do mal o menos. O Sr. Marquês ainda se incomodou a recordar que não há como um Rei, pois até o povo gosta de um Rei, é uma questão de afetos. Mas eu não sou de afetos e desde então o Sr. Marquês evita passar pela cozinha. Quem por aqui anda é a Deolinda, que dizem ser mulher de um comunista, o Pinote. Assim que soube fiquei logo com as orelhas a arder, colocarem-me junto a um familiar de um comunista, mas enfim, serão idiossincrasias da nobreza, acham-se com direitos próprios. O Pinote, nunca o vi, está preso, mas presencio a devoção que a Deolinda lhe tem quando sobre ele fala à filha que por aqui vai cirandando. Eu tento salvar o que resta desta família, incutir-lhe os valores que a possam levar a bom porto. Procuro, por isso, explorar os silenciosos suspenses com que a miúda me observa quando besuntado de chocolate viajo do tacho para a forma. Digo-lhe que a força da vontade é como a charrua que rasga a terra. Mas ela parece não me ouvir, fascinada pelo brilho do chocolate quente que escorre. Tenho a vantagem que me permite insistir, mas, compadecida, a mãe tira um pouco do chocolate com o dedo e oferece-o à filha. Vi o franzir de sobrolho da Sr. Marquesa, que de fora da cozinha nos observa, quando a boca gulosa de Joaninha suga os restos do chocolate, e pensa exatamente o mesmo que eu, coitada, filha de um comunista.

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