domingo, 13 de novembro de 2016

Baile – Deolinda e Pinote

Não consigo imaginar as danças de todo o ano, feitas da esterilidade da eletricidade e do preservativo. Baile, é na primavera tardia, quando as árvores já empunham frutos maduros. Ao descoberto, com a brisa fresca a aproveitar viajar pela calada. À noite, por entre a luz rasteira da pequena fogueira que abre um manto rosado para a lua. Na eira, rodeada do tremulado das copas das árvores feito de flutuações de luz. Sobre as lajes, onde o rodopiar levanta uma poeira fina que envolve os dançarinos. Com rapazes e raparigas, a quem o vinho áspero amaciado pelo barro faz levantar a voz. Sim, isso é baile, isso sou eu. Sou uma excentricidade do Sr. Marquês que se regala em autorizar estas celebrações pagãs, contra a opinião do padre e a vontade da mulher. Também de fora vem gente respondendo ao chamamento da fogueira. O Pinote, pequenino, fazendo jus ao dito, é dos melhores dançarinos destes lugares. Tem fama de atrevido. A sua chegada é saudada pelo enrubescer das raparigas, como se tivessem bebido uma malga de vinho de um só trago. Trocam olhares entre si, porque a socialização do desejo silencia o pecado. Esperam a sua vez, suspensas do rodopiar rápido de Pinote ao som da concertina. Esta noite também veio a Deolinda. Costuma ficar sentada olhando distraída os pares. Tem a cabeça noutro lado, dizem. Mas, como é da casa, não se aventuram com ela. Vontade não lhes falta, pois quando a quantidade de vinho na cabeça ultrapassa o que resta no pote a visão da beleza provoca deslumbramentos. Sempre que Pinote dançou com Deolinda sentiu-se insignificante. A atitude dela desarmava-o, como se fosse incólume aos seus truques e maneirismos. Dançava envolta na beatitude de quem não está. Porém, esta noite, saudou a chegada do Pinote com um olhar, como se estivesse à espera dele. Depois, tomou mais vinho do que o provar. Pinote nunca tinha visto Deolinda assim. Do desfazer do véu surgiu uma presença corporal com uma descompostura altiva. Pinote foi buscá-la para dançar. Do que aconteceu já nenhum deles se recorda com exatidão. Cabe-me por isso a mim a narrativa pois, como ireis ver, ultrapassa o espaço físico onde decorreu e apenas pode ser explicada pelo baile. A eira é retangular, sobre ela os pares giram sobre si enquanto se transladam em círculo. De um lado, a luz da lua recorta as faces com um traço escorreito. Do oposto, a fogueira esbate a diferenças entre os corpos dando-lhes o fingimento de uma única massa. Entre um lado e o outro, o revelar e o esconder. Em baixo, por entre o manto de poeira avermelhada, os pés agitam-se à procura de coincidirem num único ponto. Em cima, os troncos atiram-se para trás agarrando-se e deixando-se fugir com os braços. Os círculos começam-se a alargar ultrapassando o espaço da eira. Pinote e Deolinda vão girando por entre uma terra salpicada pelas sombras das árvores e a luz da lua. O fuso dos pés marca um risco que se vai afundando em sulco. A mão de Pinote procura a terra molhada. Dizem. Dizem, que eu disso nada sei, que, naquele dia, quando Deolinda chegou, já vinha tocada.
In 25 de abril sempre (2016) (Leonard Cohen 1934-2016)

Sem comentários:

Enviar um comentário