domingo, 27 de novembro de 2016

Caramelo – Pinote

O caramelo parece duro ao contacto do dedo. Mas quando se desembrulha mostra a forma imperfeita suscetível ao calor. E se na boca se agarra aos dentes, é sol de pouca dura, pois o banho de saliva rapidamente o transforma numa criatura doce e solicita que quanto mais se aperta mais suco liberta. Foi assim que Hilário respondeu às dúvidas do Mouro. O Pinote é um caramelo, disse-lhe. Convence-te disso, um caramelo. Mas o Mouro não se deixa convencer, é companheiro de ceifa do Pinote, conhece-o bem. Costumam estar do mesmo lado na tração da corda. Sabe do que ele é capaz. Recorda inclusive o dia que teve um desentendido com o Melenas, e não foi bonito de se ver, saíram ambos cheios de sangue e na boca o Pinote trazia um bocado da orelha daquele que passou a ficar conhecido como o Mouco. Bem o tinham avisado. Tivesse ele dado ouvidos. Mas não. Fez insinuações sobre a mulher, a Deolinda, e vai que o Pinote não se ficou e no fim disse, com a dobra da orelha entre dentes, vou dá-la aos porcos, cabrão. Por isso o Mouro não se quer deixar convencer. Mas como foi que se deixou apanhar pelo Hilário? Na corte do Sr. Morgado a tentar roubar um porco. Não é muito esperto o Mouro, uma galinha ainda vá que não vá, torce-lhe o pescoço e já não pia mais, mas um porco? Como estava a pensar levá-lo? Com falinhas mansas, não. O pobre animal deve ter achado chegada a hora da matança e entrou num berreiro que, se nas manhãs de novembro traz logo ao paladar o gosto ao guisado do soventre, a meio da noite sobressaltou o Morgado com um, quem é que me quer roubar o porco. Como um azar nunca vem só, o Hilário estava na guarda, e sabendo do companheirismo entre o Mouro e o Pinote, convenceu o Sr. Morgado a não apresentar queixa. Disse-lhe, deixe estar que com este peixe apanhamos um maior. Há muito que traz o Pinote debaixo de olho, mas desde que casou com a Deolinda ficou protegido do Marquês. Não é muito o que lhe pede o Hilário. Cimentar a amizade com o Pinote, ser visto a falar com ele em grande camaradagem, quando mais próximo melhor. E depois, perguntou o Mouro. Depois falamos, disse-lhe o Hilário. Mas o Mouro não está convencido. Não custa nada, e até parece que queres ir para a choldra, ó Mouro, recorda-lhe o outro. Se pudesse não aceitava este caramelo, mas que remédio. Lá me mete na boca e vai-me cautelosamente macerando com os dentes enquanto saliva. Saliva mais por medo do que por vontade, como se procurasse colocar uma camada protetora entre mim e a sua boca, evitando magoar-se. Pois é, remédio é remédio, mesmo quando vem com uma película doce. Raio do porco, pensou, para quê aquele berreiro todo, ele é mais dia menos dia, e comigo até seria uma aventura. Mas não, pôs-se naqueles propósitos. Não percebe que é assim a vida. Que mania esta de se deixar comer por aquele que o alimentou. Se calhar imaginou alguma ternura na lavadura. Convenceu-se que o Morgado gostava dele. Como andas enganado amigo. Mais vale uma fuga de liberdade que vianda toda a vida! Insurge-se o Mouro, enquanto me vou derretendo na sua boca.

domingo, 13 de novembro de 2016

Baile – Deolinda e Pinote

Não consigo imaginar as danças de todo o ano, feitas da esterilidade da eletricidade e do preservativo. Baile, é na primavera tardia, quando as árvores já empunham frutos maduros. Ao descoberto, com a brisa fresca a aproveitar viajar pela calada. À noite, por entre a luz rasteira da pequena fogueira que abre um manto rosado para a lua. Na eira, rodeada do tremulado das copas das árvores feito de flutuações de luz. Sobre as lajes, onde o rodopiar levanta uma poeira fina que envolve os dançarinos. Com rapazes e raparigas, a quem o vinho áspero amaciado pelo barro faz levantar a voz. Sim, isso é baile, isso sou eu. Sou uma excentricidade do Sr. Marquês que se regala em autorizar estas celebrações pagãs, contra a opinião do padre e a vontade da mulher. Também de fora vem gente respondendo ao chamamento da fogueira. O Pinote, pequenino, fazendo jus ao dito, é dos melhores dançarinos destes lugares. Tem fama de atrevido. A sua chegada é saudada pelo enrubescer das raparigas, como se tivessem bebido uma malga de vinho de um só trago. Trocam olhares entre si, porque a socialização do desejo silencia o pecado. Esperam a sua vez, suspensas do rodopiar rápido de Pinote ao som da concertina. Esta noite também veio a Deolinda. Costuma ficar sentada olhando distraída os pares. Tem a cabeça noutro lado, dizem. Mas, como é da casa, não se aventuram com ela. Vontade não lhes falta, pois quando a quantidade de vinho na cabeça ultrapassa o que resta no pote a visão da beleza provoca deslumbramentos. Sempre que Pinote dançou com Deolinda sentiu-se insignificante. A atitude dela desarmava-o, como se fosse incólume aos seus truques e maneirismos. Dançava envolta na beatitude de quem não está. Porém, esta noite, saudou a chegada do Pinote com um olhar, como se estivesse à espera dele. Depois, tomou mais vinho do que o provar. Pinote nunca tinha visto Deolinda assim. Do desfazer do véu surgiu uma presença corporal com uma descompostura altiva. Pinote foi buscá-la para dançar. Do que aconteceu já nenhum deles se recorda com exatidão. Cabe-me por isso a mim a narrativa pois, como ireis ver, ultrapassa o espaço físico onde decorreu e apenas pode ser explicada pelo baile. A eira é retangular, sobre ela os pares giram sobre si enquanto se transladam em círculo. De um lado, a luz da lua recorta as faces com um traço escorreito. Do oposto, a fogueira esbate a diferenças entre os corpos dando-lhes o fingimento de uma única massa. Entre um lado e o outro, o revelar e o esconder. Em baixo, por entre o manto de poeira avermelhada, os pés agitam-se à procura de coincidirem num único ponto. Em cima, os troncos atiram-se para trás agarrando-se e deixando-se fugir com os braços. Os círculos começam-se a alargar ultrapassando o espaço da eira. Pinote e Deolinda vão girando por entre uma terra salpicada pelas sombras das árvores e a luz da lua. O fuso dos pés marca um risco que se vai afundando em sulco. A mão de Pinote procura a terra molhada. Dizem. Dizem, que eu disso nada sei, que, naquele dia, quando Deolinda chegou, já vinha tocada.
In 25 de abril sempre (2016) (Leonard Cohen 1934-2016)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Rapa - Joaninha

Pertenço ao grupo daqueles que, de esquecidos, precisam de ser pormenorizadamente descritos, como se estivessem agora a ser concebidos pela primeira vez. Primeiro que tudo a minha função. Tenho por objetivo arrebanhar os restos que se agarram às paredes dos recipientes onde se bateu uma massa que deve seguir viagem para a cozedura. São pedaços que, suspeitando do destino de fogo, tentam sorrateiramente ficar ao fresco, enquanto os seus irmãos vão dar com os costados a uma forma cheia a três quartos para deixar atuar a levedura. O meu aspeto é um pouco ridículo, confesso, quando empunhado na mão da cozinheira, passo mesmo por ser uma caricatura de rato, um pau esbranquiçado com duas orelhas de borracha. Mas é nestas orelhas que está a minha arte. Feitas de uma borracha dura que se agarra ao cabo para absorver a energia que se propaga das pontas pela pressão exercida sobre o recipiente. As pontas, essas sim, têm uma macieza sempre pronta para se ajustar a qualquer superfície que o recipiente possa vir a apresentar, desde que seja arredondada, claro, que para as retorcidas, feitas de arestas cortantes, está o Hilário. No palácio dos Marqueses fui recebido com desconfiança. Preferiam um Rei, evidentemente, daqueles que distribuem favores pela nobreza. Ainda assim, uma desconfiança mediada pela esperança. Talvez, após um período inicial, possam voltar os outros tempos, pensaram. Pelo meu ar afável tenho este dom de suscitar expetativas. Mas, uma vez instalado na minha gaveta, focado no meu objetivo, sistematicamente, dia a dia, não passo no exame do Sr. Marquês, que comenta à noite ao deitar, tire daí a ideia, ele traz uma agenda própria. A Sra. Marquesa, mulher que se habitou a ser pragmática, respondeu-lhe, do mal o menos. O Sr. Marquês ainda se incomodou a recordar que não há como um Rei, pois até o povo gosta de um Rei, é uma questão de afetos. Mas eu não sou de afetos e desde então o Sr. Marquês evita passar pela cozinha. Quem por aqui anda é a Deolinda, que dizem ser mulher de um comunista, o Pinote. Assim que soube fiquei logo com as orelhas a arder, colocarem-me junto a um familiar de um comunista, mas enfim, serão idiossincrasias da nobreza, acham-se com direitos próprios. O Pinote, nunca o vi, está preso, mas presencio a devoção que a Deolinda lhe tem quando sobre ele fala à filha que por aqui vai cirandando. Eu tento salvar o que resta desta família, incutir-lhe os valores que a possam levar a bom porto. Procuro, por isso, explorar os silenciosos suspenses com que a miúda me observa quando besuntado de chocolate viajo do tacho para a forma. Digo-lhe que a força da vontade é como a charrua que rasga a terra. Mas ela parece não me ouvir, fascinada pelo brilho do chocolate quente que escorre. Tenho a vantagem que me permite insistir, mas, compadecida, a mãe tira um pouco do chocolate com o dedo e oferece-o à filha. Vi o franzir de sobrolho da Sr. Marquesa, que de fora da cozinha nos observa, quando a boca gulosa de Joaninha suga os restos do chocolate, e pensa exatamente o mesmo que eu, coitada, filha de um comunista.