domingo, 2 de outubro de 2016

Vulcão – Romeu

De repente sobre uma terra verde rompe uma força que a rasga com o terramoto e a enche do fogo do vulcão. Ficamos admirados e pensamos que é algo infernal que aí vem, que nunca cá tinha estado. Mas não é assim, posso-vos assegurar que sobre o verde, o pacífico, existe uma energia dormente. Essa energia sou eu e não há nada de mais errado que supor que sou o oposto da paz que destruo. Eu sou a ordem. Por isso a marca do vulcão está no sossego. Podeis estar certos disso. Sei como me deleito em ver o verde surgir sobre os sulcos que tracei. A percorrer-me as encostas, a encher-se de raízes que se me agarram firmemente, de acordo com os meus nós. Mas há um dia, que ao deitar os olhos, vejo-a a negar-me, julgando-se autossuficiente, e isso põe-me fora de mim. Como é que a obra pode ignorar o seu criador? Como é que pode encher-se de si e virar as costas aquilo de que foi feita? A sua traição desencadeia-me uma raiva que vou contendo. Devem perceber que se me refreio é porque quando vemos um filho tresmalhado não podemos deixar de olhar para ele como sendo o nosso fruto. No início até lhe achamos graça. Julgamos até ver na sua irreverência a nossa marca. Depois, quando nos ignora, e é isso que magoa, a paz esquecer o fogo que a originou, então fica insuportável e tudo o que está dentro de nós sai em catadupa. Mas, porque é que eu estou no Romeu? Porque o escolhi a ele? Não fui eu o procurei, mas sim ele que inevitavelmente veio ter comigo. Essa é a sina de todo o criador. Esta novela que está a dirigir tem-me na sua génese. Sim, o texto. Um texto bruto, feito de línguas de fogo, pequenos transes, erupções de sentimentos capazes de envergonhar pelas nódoas que deixam na toalha. Um magma primordial, indisciplinado, de consequências imprevisíveis, que engole tudo à sua volta. Cabe à produção canalizar o fogo, dar-lhe rosto, colocá-lo em cenários empolgantes onde possa ser digerido em manjares que deleitem os atores e os encham de convicção. Romeu sabe que um ator arrebatado é como um frango do campo, apenas necessita de 81 dias de completa liberdade. Então, deixa-se ficar na sua cadeira a ver a obra tomar forma. Olha com ternura os acontecimentos feitos de coisas que já não escreveu, mas poderia ter escrito. Uma espontaneidade feita da sua ordem. A sua paz. Com tudo isto vai o Romeu dirigindo L’Ancien Régime. Iludindo-se pelo construir do dia a dia. Pela forma como o tempo vai correndo, sem sobressaltos, coisa sobre coisa, tudo encaixando, tudo fazendo sentido, numa harmonia que parece universal. Num estado de nirvana do criador, convence-se que nunca mais necessitará de mim, que o fogo apenas acontece uma vez. Quase me ignora, e prefere a palavra natural. A ordem natural. Como se a paz fosse gerada pela paz, num fluxo estéril e sem sentido. Eu, que já vivi mais tempo, sorrio, deixo-o estar. Há no auge da criação uma libertação de endorfinas que propicia irrealidades e capacita clausuras narcísicas. Mas, da felicidade nasce o crepúsculo e o no seu âmago o criado deseja renunciar ao criador.

Sem comentários:

Enviar um comentário