sábado, 1 de outubro de 2016

São Sebastião – Ricardo

Servi o Imperador na sua guarda pretoriana. Contudo sei, agora, que a palavra servir não diz nada do que se presta a dizer. Mas, creditava então nas palavras que ouvia a minha boca pronunciar. Algumas delas, se mais repetidas, embutiam-se-me como um dever, ou uma devoção. Pensei, por isso, poder juntar o amor ao Imperador com o amor a Deus. Mas se o meu Deus me dizia ser único, o Imperador escarnecia dele obrigando-me a fazer sacrifícios em altares profanos. Poderia ter tido a sensatez que se deve aos loucos e aos poderosos, a de não os contrariar, mas recaí na temeridade dos mártires, daqueles que orientam a sua vida por um não querer ver. Fui julgado e condenado a ser trespassado por setas. Ensanguentado, o meu corpo atraiu os olhos de uma mulher, menos dada a excessos, que o lavou e sarou. Foi então que entendi como amava o Imperador, como tinha que o salvar. Voltei a ele pedindo que reconhecesse os seus pecados, que, como eu, venerasse Deus. O Imperador não viu o meu amor mas sim uma impertinência que tinha que ser exemplarmente castigada, pois são os poderosos quem mais sofre com os altares que constroem, primeiro, e onde, depois, se obrigam a viver para todo o sempre. Puniu-me, por isso, a ser morto da forma mais vil, aquela onde o pau substitui o aço. Por essa razão sou invocado na ocorrência de corpos amassados, nas mortes falhas de elegância, quando a alma abandona corpos sem nervo, espapaçados. Fazem-no para trazer alívio, para procurar a paz numa beleza etérea e fugidia. Senti logo a invocação de Ricardo quando a sua ida para a aula de metafísica é interrompida pelo corpo de Gonçalo sobre o passeio. Um chamamento forte. Havia em Ricardo uma força filha da necessidade. Fiz por isso a caminhada da paixão. Primeiro visitei Gonçalo. Revi-me no atordoamento do pau que vai turvando enquanto amassa. Chorei de compaixão. Depois fui convocado pelo corpo de Ricardo. Paralisado. Fremente. Trouxe-lhe o amor intenso dos companheiros de caminho, feito de um breve encontro, repleto da explosão da natureza, e condenado ao amanhecer, ao bifurcar que a luz revela. Assim fui deixando Ricardo, ascendendo, impelindo-o a levantar os olhos do chão. Disso se faz a minha gratidão. Vou, entretanto, recobrando forma. As mossas do pau convertendo-se nas pequenas fendas que a mulher inutilmente lavou. Realojando as setas de uma morte digna. Lá em baixo, Ricardo fita o meu corpo, de novo belo e jovem. Já não dá pela presença de Gonçalo. Sei o que lhe vai pelo pensamento. Como temeu o destino de Gonçalo. Foi no fim do secundário. Não se virou. Talvez tivesse sido melhor. Tê-lo olhado nos olhos. Teria sido um, ou foram vários. Não sabe. E quem não vê imagina. Por isso construiu uma fatalidade sem responsável. Feita de uma ameaça apenas. Pronunciada num tubo de som, que se arremessa na distância em direção ao alvo. Transportando uma indiscrição íntima entre o que diz e o que ouve. Como uma declaração. Eu sei o teu segredo, eu sei o teu segredo, foi o que golpeou Ricardo quando ouviu atrás de si, paneleiro de merda.

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