domingo, 30 de outubro de 2016

Carta - Zé

Hoje em dia as cartas, se é que ainda existe tal coisa, não são o que eram. Nem sequer eu sou como foram antes de mim. Digo-vos com frontalidade, eu sou uma carta da Primeira República! Substitui o adocicado escorregadio da carta monárquica, cheio de adulações, de um liberalismo eivado da divindade da constituição, por um fim mais terra a terra. Sou feita de uma hombridade racional, que sem fazer desfeita à boa sociabilidade, não anda com rodeios e diz o que pensa a bem do progresso social. Foi pelo menos assim que o Dr. José Galvão, digníssimo advogado da comarca desta vila alentejana, me escreveu, muito embora o tempo da República já fosse e vivêssemos sob os auspícios, não necessariamente bons, pelo menos na opinião do meu signatário, do Sr. Doutor, cujo nome aqui não necessito pronunciar dada a sua omnipresença. O Dr. Galvão é um homem de causas, e até a sua esposa costuma comentar com graça que, se tivesse tantos contos de réis como galinhas oferecidas em jeito de paga pelas defesas que o marido faz de pobres na barra do tribunal, teria dinheiro suficiente para mandar fazer um palácio igual ao dos marqueses. Mas não um necessariamente igual, ajuntava imediatamente o Dr. Galvão, fazendo graça sobre a graça da mulher, teria a magnificência do progresso, trocaria os salões, salas e salinhas, desenhados por decalque de hierarquias e protocolos, por espaços funcionais onde a vénia fosse trocada pela curiosidade. Houvesse verba, e acrescentar-lhe-ia com certeza um pequeno observatório astronómico, que o Dr. Galvão, embora sendo um homem do direito, não enjeita o gosto, e a esperança, que tem na ciência. Mas, enquanto não se depositam os proveitos do seu trabalho neste sonho positivista, é o Zequinha, o seu neto, que fica com a responsabilidade de transformar a galinha, salva por argumentos jurídicos de terminar como canja de defunto de pobre, numa massa alimentar que lhe proporciona um crescimento saudável arredando o espetro das enfermidades que enchem as igrejas de devotos. É a matéria orgânica destas mesmas galinhas que alimenta de energia o punho do Dr. Galvão quando com convicção me endereça ao Sr. Capitão Simões, responsável pela ordem neste recanto de Portugal. Questiono Vossa Excelência sobre o paradeiro do Sr. Joaquim Pinote. Não questiono a ordem estabelecida antes sobre ela construo a minha alegação. O desaparecimento do Pinote, como é saudado entre os seus, logo após ter encabeçado os protestos por terem trazidos os ratos da Beira Baixa para a ceifa, gente submissa e cujos horizontes ideológicos cabem dentro de uma côdea de pão, isto pensou, mas não escreveu, o Dr. Galvão, sem ter sido presente a tribunal é um ato ilegal que ofende os básicos princípios do direito. Partilho com Vossa Excelência a preocupação pela ordem pública, mas caso se confirme que o Sr. Joaquim Pinote foi levado pelo Sr. Hilário Mendes, como alguns dos seus companheiros se prestam a testemunhar, deve Vossa Excelência esclarecer onde se encontra o Sr. Joaquim Pinote e de que é acusado. Escusado será recordar-lhe da angústia da mulher e da filha.

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