domingo, 4 de setembro de 2016

Estória – Afonso e Catarina

Nem toda a gente entende a história, ou está preparada para a entender. Por isso existem as estórias feitas de valores de carne e osso, de símbolos individuais capazes de inspirar. Vejam a força de uma padeira de Aljubarrota a amassar espanhóis fugitivos. Sentem o papel destinado ao povo na formação da nação? Oiçam agora de uma rainha que transforma as infidelidades do marido em rosas. Não vos extasiais com a imagem de uma mulher de onde brota a harmonia social? Dirão então os mal-intencionados que a estória é parcial, mentirosa até. A esses respondo-lhes eu, mas é piedosa! Vede o que acontece à turba quando se lhe permite interpretar os textos sagrados. É como uma criança a brincar com uma faca, acaba por se magoar. É um ato de carinho, senão mesmo de cautela, mastigar esses textos, torná-los num bolo alimentar, que a ave mãe deposita nos bicos sedentos de certezas das suas crias. Já dizia Almada, mãe é tudo tão verdade quando passas a tua mão pela minha cabeça. Pois é. Seja história ou textos sagrados, não interessa, ai deles se não forem ministrados passando a mão pela cabeça. Ai deles? Dos homens? De todos! História, homens, textos sagrados, todos saem maltratados por igual como num encontro entre canibais. Sou por isso a salvação. Como explicar ao Afonso e à Catarina o que aconteceu ao tio Gonçalo? Falar-lhes da revolução? Dos estados depressivos? Da lei da gravidade? Estás loucos! Do que eles necessitam é de uma estória. E, tende cuidado, não deve ser a mesma estória. O pior que uma estória deve temer é ser tomada como sendo uma estória da carochinha. A mim só de pensar nisso dá-me calafrios. Por isso, para cada humano, criança ou adulto, há uma estória que ele percebe logo como verossímil e as outras como da carochinha. E não deve ter a ver apenas com a mãe de cada um, senão veja-se os nossos dois irmãos. Para o Afonso talvez baste que o tio Gonçalo saia a voar, mas a Catarina, embora mais nova, não vai nessa estória. Mas não cai? Sim Catarina cai, mas levanta-se. Prestai atenção, levanta-se, ou qualquer dos seus sinónimos, são as palavras que nunca levantam dúvidas em nenhuma estória. De pé ó vítimas da fome. Levantou-se da morte. A diferença está apenas em que cada ser acredita no seu levantar e desdenha o dos outros. Mas se as estórias explicam o que aconteceu a Gonçalo, já é mais difícil de explicar a discussão entre o Zé e a Joaninha. Uma vez sozinhos, Afonso toma o partido da mãe e teima que o Gonçalo é como um super-homem dos oprimidos que combate os exploradores deste mundo indo pelos ares conduzindo multidões de homens de fatos de macaco que o seguem iluminados. Já Catarina olha para o irmão com incredulidade e pergunta-lhe, quando é que vão parar? O Afonso fica surpreendido, pois, quem quereria parar de voar. O mundo é redondo, explica Catarina, e se estiverem sempre a seguir o Gonçalo vão andar às voltas. Por isso Catarina defende que é melhor não sair do mesmo sítio, que Gonçalo tem mesmo é de levantar-se do chão e voltar a ser Gonçalo. Pois é, só a estória salva.

Sem comentários:

Enviar um comentário