sábado, 3 de setembro de 2016

A História – Joaninha

A queda de um revolucionário está perfeitamente enquadrada no movimento de massas. A História explica isso muito bem. Sim, temos os nossos mártires, que são da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Seres que se sacrificaram, não para a comezinha salvação da sua alma, feita do medo de morrer, mas sim para a dignidade dos seus camaradas neste mundo. Camaradas de família, de profissão, de classe. Mas quando um revolucionário se atira de uma janela já é outra coisa. Nisso estou de acordo com a Joaninha, não é revolucionário. Ainda se fosse um daqueles suicídios que ajudam a ultrapassar um obstáculo, então poderia ser visto à luz de uma realpolitik qualquer, que não raramente surge ao ideal revolucionário numa encruzilhada, ou à luz de uma limpeza interna, porque o movimento de massas é um ser gigantesco que por vezes é atacado de artroses, sendo necessário eliminar os elementos entrópicos e olear as cartilagens. Infelizmente, esse não parece ser o caso do Gonçalo. Andava transtornado. Tinha descuidado a militância. Aburguesou-se. Quem diria, um operário, um gráfico que nunca virou as costas ao piquete. A revolução encontrou-o com a quarta classe no Alentejo. A Joaninha e o Zé trouxeram-no para Lisboa. Aprendeu para gráfico. À consciência do camponês explorado juntou a militância do operário. Tinha a generosidade do revolucionário. É verdade que teve as suas derivas extremistas. A juventude puxou-o para a emoção que faz esquecer a estruturação da ação. Mas isso pode acontecer a qualquer um. Veja-se o grande Che na sua aventura Boliviana, uma loucura que o leva a deixar-se morrer às mãos do imperialismo. Mas, não se atira inutilmente de uma janela. É isso que magoa. A futilidade das ações humanas sem impacto na transformação social que faz avançar a História. Para mim, a História, a ação humana é como o ato sexual para outros, deve dar fruto. Mas um fruto social, de um mundo melhor. Disso padecia Gonçalo nestes últimos tempos, deixou o mundo para se fechar numa redoma feita de uma inutilidade que diria preguiçosa. A lascívia amolece primeiro e empedernece depois. Claro que a Joaninha sofreu quando soube. O Gonçalo era como um filho ideológico. Vindo do Alentejo, viveu com eles nos primeiros tempos, ajudou o Afonso e a Catarina a crescer. Eles também irão sentir a sua falta. Mas, é o Zé que me preocupa. Ficou a remoer, a afundar-se num pântano. Parece esquecer a necessidade primária de se assegurar um saudável funcionamento da máquina. Em vez disso, conjetura. Pode ser o início de uma deriva. A consciência de classe, esta minha magna construção, deve estar atenta à consciência do indivíduo que, por não ter sido gerada por um processo lógico, é dada a perturbações. A revolução não se faz com o canto da cigarra. É sim obra da formiga que laboriosamente executa a sua tarefa, minuciosamente, sem exaltações do coração, aceitando as realpolitiks que se atravessam no caminho. Por isso, quando a Joaninha e o Zé discutiram sobre o Gonçalo, a Joaninha primeiro estranhou o Zé e depois ficou alerta.

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