quinta-feira, 4 de agosto de 2016

20:07:31 – 20:07:38

Zé é interrompido por Joaninha que o olha demoradamente. É também levado a se observar. Tem descurado o corpo. Num desleixo associado a alguma apatia tem-lhe prestado pouca atenção. Não fosse pelas mãos, que frequentemente se intrometem em frente aos olhos, quase ignoraria a sua existência. Mas então não é possível ignorar a agitação dos dedos pendurados das costas e as marcas castanhas que por ali crescem. Vê nelas os sinais da idade e conjetura acerca do resto. Mantém-se pelas suposições pois o pudor impede-o de procurar. Não vai ao médico e por isso não separa o dentro do fora. Para Zé o corpo é uma massa disforme e sem fronteira. Exclui a beleza, essa barreira que enfeita a matéria para a tornar apetecível, dado que esconder é uma subtil afirmação da existência. Observa assim a massa ondulante que fibra ao ritmo da respiração marcando a passagem do tempo como a oscilação do átomo.
Continua a ser um homem bonito, o Zé, aos 57 anos. A testa alongada e bronzeada coroada por uma cabeleira farta. O cabelo encaracolado e uma barba tisnada de brancos cercam uma boca carnuda encimada por dois olhos negros molhados. As bochechas saídas dão ao todo um ar de ilha num mar de pelos, com as orelhas a emergirem como pontiagudos rochedos. No pescoço forte, as rugas da idade não incomodam e anunciam um corpo robusto levemente coberto de tufos macios que ondeiam sobre si preservando a forma. Por debaixo, a pele suave está regada de pequenas manchas, ancoradoiros para quem por ali navega. Os pequenos mamilos rosados, num peito que não se desmancha, são os marcos geodésicos daquele maciço. A imponência nos homens realça a beleza, como se num desafio exigissem o seu direito ao sol, a estarem ali. É esta presença que é cara a Joaninha.
É tranquilidade o que sente quando observa o Zé a dormir a seu lado. O sono, que torna os corpos indefesos, protege-os com a graça do bebé. É assim que Ivone se sente mais feliz. Entrega-se na vigília daquele gigante. A força do corpo adormecido, fazê-la esquecer que lá dentro fervilha de desejos que teme não perceber. Olha para a massa que respira. É como se de um desconhecido se tratasse. Percorre as linhas do corpo, a nítida fronteira que estabelecem com o ar. Prossegue para outros objetos que silenciosos os cercam, as dunas do lençol, a madeira da cama, o castanho do chão, o branco da parede, os retângulos das gavetas da cómoda. As cores vívidas acentuam as formas, delineando-as, de uma geometria perfeita. Sente-se envolta por um mundo sem cambiantes, onde cada coisa é igual a si própria. Sente vergonha da paz que sente, mas deseja que este seja o fim da saciedade.

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