sábado, 13 de agosto de 2016

Volkswagen – Romeu

Não há amor sem sucesso, pois o amor exige a perfeição, ou dito de outra forma, a harmonia. E o que é a harmonia senão o perfeito encadear de mecanismos, pistões bem oleados e firmemente agarrados à sua biela, num movimento contínuo, sempre perfeito, seja ele mais rápido ou mais de vagaroso. Não me quero gabar, mas eu sou feito dessa harmonia, sou um Volkswagen. Sou feito de anéis que asseguram o isolamento e regulam a dilatação. Pego à primeira e não desiludo quando desenvolvo. É essa regularidade, no acelerar e desacelerar, que Romeu procurou em mim e estou comprometido em não o desiludir. Mas o que tem isso a ver com o amor? Não é o amor exatamente o oposto? Uma combustão desenfreada, mais explosão do que movimento, que nos paralisa dando-nos a sensação de já não necessitarmos de ir a lado algum? Caros amigos, estais a cometer um dos erros mais comuns entre os humanos, confundir o amor com a paixão. Nunca dois seres tão opostos têm tão sido obrigados a viver juntos, dando origem a tanta confusão, tanto mal-entendido. O amor sempre a procurar a paz e a paixão o desassossego. Coitados, por que não deixam cada um deles seguir o seu caminho, preencher-se sem sentir a falta do outro. Mas não, miserável vida que ambicionas juntar o insolúvel. Sempre a apregoar o amor com paixão ou a paixão do amor, não sabes que assim não haverá sucesso no amor? Sim, talvez o haja na paixão, essa sôfrega que pelo momento deita tudo para trás das costas. Mas o amor necessita de percorrer quilómetros de regularidade. Foi por ser disto ciente que Romeu me comprou, por estar certo de onde quer ir. Por isso quando me põe as mãos em cima é sempre com uma intenção, para ir a algum lado. Mesmo quando diz que é para relaxar, para desanuviar, para dar uma volta apenas, fá-lo para reajustar o rumo, para tomar folgo. Para mim é um prazer, pois foi para isto que fui feito. Direi mesmo que essa é a minha escola. Temi, quando soube que ia ser vendido, poder ir parar a mãos trémulas, indecisas, que nos levam a dar uma volta e regressam ao ponto de partida tal como de lá saíram, ou pior que isso, que regressam a pensar e agora. Mãos à procura da paixão, que andam no mundo à espera do acaso, de um acidente, sim, digo um acidente, com todo o pavor que essa palavra pode desencadear num carro. Algo de que saímos mais ou menos amachucados. Amedrontados para novas viagens. Mas, tive sorte, pois o Romeu sabe onde quer ir. Talvez não seja apenas sorte, somos escolhidos por aquilo de que somos feitos, e eu sou um Volkswagen. Nas mãos do Romeu, com a Catarina ao lado, é uma perfeição. Se a isto não se chama amor, o que será o amor. Uma vida a três de acordo com um plano, todos de acordo, cada um ciente da sua função, do seu contributo para o objetivo. Como sou feliz aqui, sentir que farei parte da história. Concentro-me para dar o meu melhor. Por vezes percorre-me um calafrio por receio que possa desiludir, que algo corra mal por minha causa, mas logo me passa e agarro à estrada.

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