domingo, 14 de agosto de 2016

Guitarra – Afonso

Uma guitarra deitada de costas, como deve ser, sobre um tapete de quarto, com as cordas um pouco lassas de já não ser tocada há algum tempo. Aqui estou eu, um pouco esquecida, eu que fui tão desejada e agora já ninguém me toca. Não sei se será pelo pó. Se ao menos alguém me arranjasse e tornasse resplandecente como antigamente, talvez o Afonso por acaso olhasse para mim e tivesse vontade de me voltar a por a mão, dedilhar-me, eu sei lá. Não que ele toque bem. Mais emoção do que perícia. Mas é bom sentirmos que servimos para algo, que alguém nos pega, ainda que não seja como sonhámos que viesse a ser. Este é um pouco o destino dos seres passivos. Que podemos nós fazer. Ter fé, acreditar que em algum momento vão olhar para nós, que vão estender a mão e pegar-nos. Sim, dizia, esse é o nosso destino. Esperar que sejamos escolhidos. Às vezes, aqui sozinha, especialmente nas noites em que o Afonso não vem dormir, parece que fica na casa da namorada, dou comigo a recordar quando ele olhou para mim, para a montra onde eu estava. Não era das mais baratas. Tinha, claro, alguma vaidade disso. Sei que somos escolhidas pelo nosso valor. O Afonso olhou para mim e percebi logo que era desta. Muito se aprende de posar numa montra. Lemos o nosso valor nos olhos de quem passa. Só pela forma como Afonso me olhou, tremi. Comprou-me. Como não sabia tocar, teve vergonha de me experimentar logo ali. Levou-me para casa. Pegou-me com emoção. Pude sentir isso pelas mãos, pela pressão que exercia sobre o meu braço. Aproximou os dedos das cordas, tocou-lhes ao de leve, um pouco receoso, ainda assim com o sulco na ponta dos dedos. Confesso que estava nervosa. Ali com ele, gemi um pouco. Uma vibração monocórdica. Não posso dizer que não tenha sentido algum prazer. Ou talvez fosse mais alegria. Sim alegria, prazer deveria ser mais tarde, pensei. Achava que era o início, que me adaptaria, com o tempo mais cordas tocariam. Antevia com ternura o caminho que tínhamos pela frente. Estava decidida a guardar esta história. Ele cada vez melhor. Mais capaz. Talvez com um pouco menos de emoção, mais ciente de mim, do que eu sou capaz. Foi assim no primeiro dia. Nos dias seguintes, gostava de se sentar na cama e ter-me nas mãos. Sem fazer nada. Só a sentir o peso, o verniz na palma da mão. É assim o Afonso. Tem uma intensidade em não fazer nada. Em se quedar a olhar, como que à espera. No início deixei-me inebriar por essa paz, uma quase religiosidade. Talvez fosse assim o paraíso. Mas era nova. Tinha sido feita para tocar. Andei disso esquecida por uns tempos, mas depois voltou a instalar-se-me na cabeça. Quando estava ali, nos braços do Afonso, dava comigo a pensar como seria lá fora. Como seria o mundo com todas as cordas de que sou feita. Comecei-me a tolher. Até as poucas notas que de mim eram tiradas já não me pareciam iguais. Fugidias, um pouco falsas, mais feitas de compaixão do que de prazer.

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