quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Trela – Ricardo e Humberto

Sei bem, o que vos vou contar pode facilmente ser usado para satisfazer as línguas gulosas, as bocas estridentes, aqueles cuja vida está contida numa viagem entre os Apalaches e as Rochosas, tão cheia de aborrecimento como de marcos que indicam quantas milhas já se percorreram, para assinalar que algo aconteceu, e no fim dizer, parabéns, na sua vida fez 1254 milhas, foi mais longe do que 87% das pessoas como você. Sim, sei que esses lerão esta jornada com um sorrisinho e a usarão como o mau exemplo. Mas pouco me importa, sou uma completa defensora da liberdade, cada um é dono da sua vida, até de comentarem esta. Para vos aguçar o apetite desde já vos aviso que sou perversa até aos ossos. Desde logo porque não sou aquilo para que fui feita. Uma trela tem como objetivo segurar o cão. Levá-lo pela rua. Refrear-lhe os impulsos. Puxá-lo para nós. Trazê-lo à rédea curta, quase com as patas no ar, porque um animal é um animal e cabe ao ser humano refrear-lhe os instintos para que saiba quem é o dono, seja educado, renuncie às suas fraquezas primordiais. Sou perversa, porque quando olham para mim, pendurada atrás da porta do quarto é nisso que pensam, e nem se questionam onde estará o cão, tão bem definida está a minha missão. Sou perversa pois sou usada para o oposto. Para trazer por casa. Para soltar os instintos. E esta tarefa dá-me prazer. Sentir como Humberto se altera quando Ricardo me coloca ao seu pescoço. Ele que é tão contido. Excita-me sentir-lhe o frenesim. A vontade de saltar em frente, sem medos nem imaginar perigos. Humberto é feliz e Ricardo também. Ricardo segura-o com delicadeza, dá-lhe pequenos puxões da mesma forma que se incita um touro. Eh Touro! Eh Touro! E sorri. Outras vezes Ricardo veste-se de legionário romano. O peitoral fica-lhe tão bem. Alarga-lhe o peito com uma superfície bronzeada que visto de baixo lhe dá um ar imponente, de estátua viva. E Humberto, que é tão comedido, não se contém e diz, o direito é romano, o direito é romano, e ri como só assim o vejo rir, numa traquinice tardia. Podeis perceber como sou feliz e já entendeis como uma trela pode ser um arauto da liberdade. Para um cão posso chegar a ser um objeto de devoção, em que ele pega com os dentes mal o dono chega a casa. Mas é só a exacerbação do seu estado natural. Daquilo para que os cães foram feitos. Um aborrecimento de pedinchar afetos. Vós humanos fostes selecionando-os. Cada vez mais puros. Pedigrees variados. Todos mais imbecis. Mais amigos do homem. E depois dizeis que os nazis são uns monstros. Olhai o que fizestes aos cães. Eu, que a eles estava destinada, senti a revolução no dia em que fui colocada ao pescoço de Humberto. Não há dia mais feliz do que aquele em que podemos fazer exatamente o contrário daquilo para que meticulosamente nos projetaram. Olhamos para nós, para o cabedal, as fivelas, a presa, e percebemos que a tortura a que fomos destinados não é destino, que o destino não existe, tudo está nas nossas mãos. Porque como disse um poeta, a poesia é a metamorfose das palavras. Tristeza que tenha de ser uma trela a recordar-vos.

Sem comentários:

Enviar um comentário