sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Renault – Joaninha

Os Renaults são carros redondos, especialmente os antigos. O Renault da Joaninha é duplamente redondo, de antigo e da Joaninha. Eu sou esse Renault com a reforma assegurada. Estimado pela minha dona pelo que fiz e pelo que agora represento. Sou uma 4l de 5 portas, do tempo em que os tampões das rodas escondiam com algum pudor umas jantes não desenhadas para serem mostradas. Fiz muitas viagens que, com o tempo, ganharam de cerimónia o que foram perdendo de utilidade. Tenho saudades das crianças, o Afonso e a Catarina, no banco de trás, com a Joaninha ao volante. O Zé nunca gostou de me conduzir. Agora pouco saio deste ramerrame, casa-escola, escola-casa. De antes recordo as viagens ao Algarve, as férias no parque de campismo de Armação de Pêra. A aventura da estrada. Os carros que me apareciam pela frente, olhos nos olhos, a fazer ultrapassagens. Agora, estou mais para o chá... As conversas das colegas da Joaninha junto ao carro, antes da última despedida. Por vezes repetem a despedida, sempre com mais uma coisa para dizer. Coisa redonda, coisas de mulheres, aqui que ninguém nos ouve. Nas idas para o Algarve era o calor da conversa do verão de 75. Cheia da certeza de mudar isto. Ainda sem os miúdos, com o que eu percebia, rodava convicta de haver um antes e um depois. Cada instante era diferente. Cada quilómetro percorrido deixava para trás o passado. Falavam das cooperativas, da terra a quem a trabalha, enquanto atravessavam um Alentejo amarelo. Depois veio o Afonso. Tenho que confessar que fui comprada por causa dele. Para haver espaço para o levar. Na ida de 75 já Joaninha o levava na barriga. Eu não dei por isso. Ainda era nova e não desconfiei dos cuidados de Zé. “Queres que eu conduza, amor?”. “Olha que se calhar é melhor querida”. Mas Joaninha sempre igual e ela própria não desarmava. Trabalho igual, salário igual. Depois os tempos foram mudando. Não para Joaninha, mas já Catarina explora a força herdada da mãe na sua vertente mais feminina. Sei que não é ela que conduz. Quem mo disse foi o Volkswagen do Romeu, o companheiro dela. Desculpem, agora já não se usa companheiro, é o namorado. Estacionou ao meu lado e estivemos na conversa. Começou na brincadeira acerca dos carros Franceses. Estes Alemães. Acham que carros é com eles. Mas entendemo-nos. Ele também tinha alguma curiosidade em perceber o que é a vida de um carro idoso. Percebi que tem medo de ser trocado ao fim de seis ou sete anos. Coitado, se calhar aquilo dos carros Franceses era inveja. Mas lá me contou do Romeu e a Catarina na estrada. Coisas que carros contam a carros... Inconfidências que ficam só entre nós. Percebi que não estão a pensar em crianças. O Volkswagen não vai passear criancinhas tão cedo. Coitado, uma vida bem menos preenchida do que aquela que eu tive. A revolução. As crianças. O fruto da revolução. Os frutos a crescer. O esmorecer das convicções no Zé. A sua ritualização na Joaninha. O desemprego de Afonso. O Volkswagen da Catarina.

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