terça-feira, 30 de agosto de 2016

Registo Clínico – Zé

Dizem que um registo clínico-psiquiátrico não é mais do que um caldeirão de linearizações dos romances de Dostoiévski condimentadas com compostos químicos, mas estão muito enganados. Nós somos mais do que isso. Estais a rir-vos? Tomo nota! Sei bem o que valho. Ultimamente anda para aí uma democracia que tudo relativiza. Têm a mania que de médico e de louco todos temos um pouco. Qual quê? Eu não. Está tudo aqui escritinho, tim tim por tim tim. Mas ninguém me leva à séria. Que saudades de quando eu era bem usado. Bons tempos, dava viagens, ou pelo menos tirava de circulação. A diferença estava apenas na pegada de carbono, o resultado era o mesmo. Quem é este que anda para aí a partir o templo? Então, não pagam os vendedores os seus impostos! Deve ser um sabotador que quer dar cabo da taxa de crescimento. Só pode ser maluco! Vai já para a cruz espiar os pecados. Estão aqui todos assinalados, e se for do tipo depressivo até é capaz de pingar mais alguma coisa. Eu sei disto, são muitos anos a virar almas. Vão ver que até se vai descobrir que foi ele que colocou pregos na manteiga do povo. Dizem que afinal não há relatos de tal enormidade? Pois é, um incompetente. Afinal surgiu um prego. Eu não dizia! Não há dúvida nenhuma. Mas, agora, reduzem-me a esta insignificância. Dizem que faço parte de um processo cujo objetivo final é curar o paciente. Ora esta. E depois, vou para a gaveta amarelar? O que há é falta de autoridade. Transformam os casos clínicos num ramerrame onde a distância doutor-paciente é colocada em causa. Uma distância irmã das outras distâncias, mães da ordem social. Vejamos o meu caso. Tenho no topo escrito Gonçalo Aires, nascido em 25 de fevereiro de 1960. Quem escreveu? Nada mais que o Dr. José Galvão, um promissor jovem psiquiatra e amigo do paciente. Por isso nem sequer sou um registo a valer e assisto estupefacto a intimidades. São amigos, está bem, mas se é assim para quê abrir um registo? Porque não vão para um café e conversam? Bem sei que é para passar as receitas, mas não gosto desta subalternização a que sou sujeito, transformado num mero auxiliar de memória. A vingança serve-se fria, sonhava eu. Tinham acabado de ligar da polícia a perguntar sobre o Gonçalo. Quando desligou, o Dr. Galvão abriu a gaveta e retirou-me para cima da secretária. Ali ficou a recompor-se enquanto focava o olhar. Pouco havia escrito em mim. Preparava-me para gozar a minha vingança, ver reposta a minha dignidade, ser finalmente preenchido com afirmações que marcam sulcos no estômago, das que viram pacientes do avesso, de fazer inveja ao próprio Dostoiévski, quando ele, num estado de completa insensatez, murmura, o fim da revolução. O fim da revolução? Houve uma revolução? Já andava desconfiado, este relativismo, mas também nunca me dizem nada, sempre aqui enfiado, entre a gaveta e estas quatro paredes. E acabou, diz o Dr. Galvão. Será que poderei ter um papel na nova ordem? Ou, será que o Dr. Galvão foi vítima de uma recaída psicanalítica, daquelas que trocam fármacos por emaranhados de conjeturas?

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