terça-feira, 9 de agosto de 2016

Peluches – Catarina

Os peluches no quarto de Catarina contam uma história em duas fases. A primeira, mais cor de rosa e redonda, de um período em que a linguagem ainda não era capaz de traçar formas precisas, é feito de noddies adocicados mas sem graça, que agora se amontoam dentro do armário. Cá fora, estamos nós os peluches da segunda fase, dispostos em cima da cama e sentados nas cadeiras, senhores deste quarto por testamento de alguém que partiu. Estamos fortemente imbuídos da tarefa de combater o esquecimento, para que o quarto não seja deixado ao abandono e usado para fins diferentes daqueles para que foi tantos anos habitado. Representamos animais de olhos brilhantes que imediatamente encaram quem entra, num misto de aviso e solicitude. Muito cedo a Catarina nos preferiu a nós, mais fiéis modelos da realidade, do que aos redondos moradores, odes a uma meiguice fechada sobre si mesma, falha de esplendor. Juntamos a serenidade calma do leão com a matreirice rápida do guaxinim. Quem para olha para nós não pode deixar de ver isso e simultaneamente sorrir pois, não obstante os perigos que as nossas qualidades subentendem, somos fofos. Essa é evidentemente a razão pela qual as meninas nos preferem. Nelas, aquele sorriso exclui uma competição aberta, para a qual os homens se sentem frequentemente impelidos, e desencadeia um outro jogo. Porque sabemos isso? Bem, porque nós somos os peluches e recordamos como a Catarina nos pegava e repreendia por crimes que não tínhamos cometido, mas para os quais nós parecíamos predestinados. Não olhes assim para o coelho, dizia ela com ironia ao guaxinim. Por causa desta partilha habituámo-nos a uma camaradagem em que cada um representa o seu papel. Foram-se juntando animais, oferecidos principalmente pelo pai, depois de uma viagem, ou de uma doença mais renitente, das que não deixa ir à escola. A chegada de um novo bicho era por nós saudada com a curiosidade de saber que nova malandrice se vinha adicionar ao grupo. Por isso fazíamo-nos difíceis, dado que a verdadeira camaradagem nunca é oferecida, obrigando o novo habitante a suportar afrontas. Tinha assim que esgrimir o seu feitio com o nosso, uma luta na qual encenávamos as disputas do costume com um olho no novato para ver de que era feito. A Catarina a tudo isto assistia, acabando por facilitar a vida ao recém chegado, acarinhando-o e deixando os veteranos relegados aos cadeirões e aos cantos do quarto. Cresceu assim nesta selva comedida por quatro paredes mas não se pode dizer tenha aqui estado fechada. Nós que estávamos cá dentro e que quase nunca saíamos, apercebíamo-nos que algumas destas brincadeiras que connosco encenava já tinham sido semi-aprendidas lá fora, mas era no sossego deste retiro que as desenvolvia experimentando variações. Por isso podemos dizer que quem melhor conhece a Catarina somos nós, dela não só sabemos o que é como todas as outras brincadeiras que connosco experimentou e que por alguma razão, ou falta dela, nunca aplicou lá fora.

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