sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pedra – Ivone

Em casa de Ivone. Em cima de um móvel. Há uma pedra. Ivone agarrou em mim e trouxe-me para casa. Já percorri todas as divisões. Com exceção da cozinha, que não conheço mas de quem percebo bem o cheiro. Julgarão que tenho tido uma vida muito agitada. Nada disso. Passam-se dias sem me ligarem nenhuma, e então lá pegam em mim. Levantam-me a meio de uma conversa, rodam-me entre os dedos, procurando uma razão, e voltam-me a poisar. É mais frequente quando há uma cara nova. Não nos primeiros dias. Quando começam a estar mais à vontade vão entremeando a conversa com a observação do que os rodeia. O Zé tem particular gosto por mim. Conheço bem os seus dedos grossos e a mão quente quando me volteia. Há mais de 2 anos que vem regularmente a casa. Mais para o fim da tarde, nunca ficando para comer. Minto, no início costumava vir também de manhã cedo, mas agora não. O Ricardo não me toca tanto. Gosta mais de falar. Janta por cá às vezes. Ri muito. Parece irmão da Ivone. Planeiam muitas coisas juntos. Sonhos e mudanças. É a Ivone que me vai trocando de lugar. Acontece por fases. Durante muito tempo nada acontece, até que um dia resolve mudar tudo, troca os móveis de sítio, desencanta velhas fotografias que coloca nas molduras. Sou apanhada nesse turbilhão, e lá vou da sala para o quarto, do quarto para o hall de entrada, do hall regresso à sala. Bom, é uma casa pequena e pode ser exagerado falar em percorrer a casa toda, mas para uma pedra não é pouco. E também não fui feita para isto. Ser apanhada em súbitas altercações. Correrias sem sentido que nos deixam no ponto de partida. Apenas mais inconformados. Chateia-me. Mas como pode uma pedra clamar por paz quando tudo à sua volta anda num turbilhão. Pergunto-me se a Ivone não se enganou quando me arrancou à montanha. Ao lento passar dos dias. À contemplação. Os humanos inventam ideias que os aliviam. Depois arranjam símbolos para as representar, pois sabem das fraquezas da imaginação e da sua própria inconstância. Por isso somos nós escravizadas aos seus desígnios. Obrigadas a dar voz ao que não temos. E mesmo, quando por puro acaso, somos o que nos imaginam, revoltamo-nos por sermos meros objetos de propaganda. Areia para os olhos. No meu caso, custa-me sentir um mero fantoche em mais uma revolução. A Ivone tira-me do quarto. Terá as suas razões. Coloca-me na sala e pensa, a pedra, o símbolo da paz e da temperança, fica bem na sala. E pensa, é sobre o sofá que procurarei a introspeção, e a pedra estará sobre a mesa percetível ao olhar. E, contudo, já esqueceu que me levou para o quarto pela mesmíssima razão que me quer agora na sala. Custa-me, repito, sentir-me mais uma vez usada. Se ainda acreditasse. Depois sobem a parada e atribuem-nos missões em que não acreditamos nem sequer estamos preparados. Símbolos sobre símbolos. São infernais os humanos. Ainda antes do Zé. Era Ivone mais nova e ofereceu a Gonçalo uma pedra com uns paus dentro de uma caixa de fósforos. Ivone quer acreditar que gosta de pedras.

Sem comentários:

Enviar um comentário