sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Para-choques – Romeu

Quem mais sabe do atropelamento do Romeu sou eu o para-choques que o atirou para a frente. Sai-me da frente, disse-lhe em jeito de aviso, e resultou, pois é corpo novo que reage e não se deixa cair como um peso morto. Peso morto era aquele que Romeu se quedou a olhar no meio da passadeira. Sim é verdade, ele estava na passadeira. Miúdo atilado o Romeu, senão não teria autorização de ir sozinho para a escola aos 10 anos. Aquilo também eram outros tempos, menos bandidagem e andava-se em relativa segurança na rua mesmo já com os comunistas à solta. Sendo ajuizado deveis então questionar-vos porque é que ele parou no meio da passadeira e se deixou atropelar. Os para-choques têm o poder de num contacto, ainda que breve, absorver de um só golpe o que vai na alma das pessoas. Por vezes o choque é tão intenso que com a alma vem a vida, mas no caso do Romeu não, foi choque, não posso negar, mas muita vida ainda por lá ficou. Pois, é assim. É verdade que Romeu julgou reconhecer no homem que caía um parente extraviado que nas histórias de família surgia entre o conto do lobo mau e a espera do regresso do filho pródigo. O tio Gilberto que o 25 de abril transformou num revolucionário. Muito novo ainda, era visto a fazer discursos inflamados. Quando estas intervenções chegavam ao conhecimento da família gerava-se um misto de revolta e vergonha. Tinha sido educado no velado desejo de vir a ser um governante, um estadista, um daqueles homens que deixam marca numa nação, incontornáveis. Jeito não lhe faltava. Em pequeno já dominava a oratória, como noutros tempos seus semelhantes dominavam a poesia. Era com um brilho nos olhos que pais e avós o ouviam. Trocavam olhares cúmplices de satisfação. Havia futuro no miúdo. A revolução foi para ele como um parto prematuro. Um ser ainda em formação viu-se atirado cá para fora e os seus instintos disseram-lhe que não devia perder a oportunidade para se revelar. Nascido para orar, algo não parecia bater certo no que dizia. Talvez não fosse imediatamente evidente para as mentes embriagadas pelos vapores da revolução, mas para os mais distanciados, especialmente aqueles a quem a revolução veio interromper um destino, não era possível deixarem de ir do sorriso à vergonha, em função da proximidade familiar ao imberbe político. De tão desajeitado foi considerado perdido e passou a ser invocado em narrativas familiares de caráter trágico onde Romeu logo percebeu o pendor pedagógico. Por isso, quando Romeu viu um homem a cair de um edifício ocorreu-lhe se seria o tio Gilberto. A sua imagem exerce sobre ele um fascínio igual ao do fruto proibido. Não a renúncia imediata que é sintoma de estupidez, mas uma curiosidade quase meticulosa sobre alguém que mal conhece e de quem tanto sabe. Ficou por isso a olhar absorto o corpo em revolução, quase au ralenti, até ao seu embate contra a calçada. Romeu, tal como eu, absorve toda a energia dos choques.

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