domingo, 21 de agosto de 2016

Olhar – Ivone e Gonçalo

Na vida há momentos que marcam, que repetidamente nos vêm à memória, repassados da intenção que os forjou. Foi assim o olhar que Gonçalo encontrou em Ivone quando ela lhe estendeu a caixa de fósforos. A caixa foi o cenário sobre o qual Ivone colocou o olhar. Fixemo-nos nesse momento como num cartaz de uma peça de teatro. A mão aberta de Ivone, vazia. A caixa pesada entre as mãos de Gonçalo, aberta. E sobre eles o olhar. Mesmo sabendo o que aconteceu depois, sinto-me feliz por ter sido esse olhar. Há na entrega de uma mulher um ataque a que um homem facilmente sucumbe, num misto de vaidade e piedade. Regozijo-me sempre que penso em mim naquele momento. Mas terei tido eu outro? Existirei para além desse cenário, dessa caixa aberta, daquela mão estendida. Não sei, mas não fui criado por acaso. Sei das dúvidas que assaltaram a caixa e da indiferença do seu conteúdo. E sei mais do que eles. Existo por duas razões. A primeira porque Ivone gosta de livros. A segunda porque há na vida de uma mulher um momento em que o corpo se impõe e diz, é agora. Diria que a primeira razão foi o vestido que Ivone colocou sobre a segunda. A segunda razão é demasiado física para poder ser apresentada sem despudor, e para a cobrir nada melhor do que um livro. Já não recordo com exatidão qual foi o livro, mas com certeza um que leu sobre bruxas e unguentos mágicos. Sobre poderes que penosamente têm sido atribuídos às mulheres e as têm levado ao fogo. Queimadas por homens assustados e mulheres enfurecidas. Um livro feito com a magia do que se apanha do chão, por isso a pedra, os paus e a terra. Coberta por esse livro fez-me. Um olhar feito da tranquilidade do livro e da intensidade do corpo. Mas regressemos ao cartaz. Aquele em que fiquei capturado para a eternidade. Um olhar que traz público, que enche salas. Todos querem poder ter um pouco de mim. Ou porque nunca tiveram, ou porque sonham que tiveram, ou então querem só recordar. Para todos tenho a frescura que dá o tom da verdade, ou que aviva a memória. Por isso não tenho ilusões de ser diferente de outros olhares, também feitos de corpo e vestidos de alguma forma. Alguns com certeza, na pobreza ou na urgência, com pouca coisa por cima, apenas para disfarçar. Só não tiveram a sorte de serem colocados num cartaz, porque até o despojamento cativa. Distraí-me a falar de mim e esqueci o Gonçalo. Inebriamo-nos na descrição do feitiço, na determinação e força do seu criador, e esquecemos o enfeitiçado, como se fosse vítima, como se não usufruísse, e para o olhar são precisos dois. Sei que fui planeado pela Ivone, mas o que seria de mim sem o Gonçalo. Existe no olhar não correspondido um raiar de loucura de que fujo a sete pés. Quantos de nós se perderam assim. É algo que nos acautelam de pequenino. Ensinam-nos a saber quando o outro lado lá está. Essa é a arte. Esse é o bruxedo. Entregarmo-nos para sermos recebidos. E o Gonçalo estava lá.

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