quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Notícia – Ivone

Nestes jornais a morte violenta vai de uns poucos parágrafos a uma página inteira. Cabe ao editor o arbítrio diário sobre a dimensão e disposição das notícias. A notícia sobre a queda do Gonçalo não foi muito longe no escrutínio, o jornalista ainda tentou. Usou os seus contactos na polícia para obter mais informação. Coisa pouca. Um nome, Gonçalo Aires, uma idade, 26, uma profissão, gráfico, mantinha alguma atividade num desses pequenos partidos de esquerda, ligaram uns camaradas a informar-se, nada de particularmente relevante sobre a sua vida pessoal, os pais vieram do Alentejo buscar o corpo, parece que vivia sozinho. O jornalista, com alguma rodagem neste tipo de tema, percebeu que a única oportunidade que eu teria seria entre as notícias de sangue e as notícias de trânsito, mais pelo estardalhaço da queda do que pelo ser que caiu. Como notícia que sou, sei muito bem que para algumas pessoas o seu momento de glória se atinge no baque que fazem no chão e uma pequena nota no jornal, que não seja o agradecimento da missa de sétimo dia, o que no caso de um revolucionário não se aplica, embora pudesse haver uma nota laudatória do partido, o que são acontecerá quer pelo sujeito quer pelo estado de desorganização interna em que se encontra a organização partidária. Enfim, uma vida que atinge o seu auge pelo empecilho que provoca. Mas foi por isso que conquistei o meu direito a ser selecionada. Diz assim o meu título, Congestionamento de trânsito provocado por homem que se atira de uma janela. Não riam, a vida não é fácil e cada um faz o que pode. Por isso, no meu corpo, para além do factual acerca do caído, rapidamente se passa ao impacto social provocado pela queda, um atropelamento, de menor gravidade de uma criança de 10 anos, acentuado por um há a lamentar um atropelamento, aqui não posso esconder o meu desagrado ao efeito caricato mas compreendo que este é um mal de que padecem as notícias híbridas, e o congestionamento de trânsito, que se fez sentir por mais de uma hora, foi de facto bastante menos de 60 minutos mas abaixo disso não teria relevância jornalística. De tão factual que era, e depois de ter sido arrancada a ferros e ainda assim com a sorte de nada num dia meio morto, pensava que iria ter uma manhã tranquila, ser lida por alto, de passagem, ao virar de uma página. Não é que de repente dou com dois olhos fixos em mim que lentamente vão ficando brilhantes. É verdade que Ivone e Gonçalo já não se encontravam à mais de um ano, mas os pais poderiam ter-lhe dito alguma coisa. Deve ter sido do choque. Coitados, não é fácil. Para mim também não. Estava a pensar que seria um dia pacato, mas agora estes olhos não me largam e não sei que fazer com eles. Estou a habituada suscitar comentários que vão do anúncio do fim do mundo ao pedido de vinda de um homem providencial, imaculado. Ouvistes a calçada, sentimentos que são desabafos que aliviam, que estabelecem as fronteiras de um mundo feito de emoções que necessita de ser constantemente acarinhado. Mas não destas comoções, que não é para isto que eu sou feita.

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