domingo, 7 de agosto de 2016

Espraiar – Isabel

Os seres são feitos da propriedade da contenção. De um corpo, comporta dos seus fluidos, que os impede de transbordar, da dissolução do ser num magma primordial. Dizem que este espraiar é o contrário de estar vivo. Que estar vivo é a contenção, a vida entre portas, sendo o corpo o zeloso guardião do eu, da dignidade, de tudo o que somos feitos. Talvez se permita algum extravasar, mas controlado, pensado, de consequências bem definidas, e acima de tudo capaz de preservar o eu. Eu não sou assim. Tenho um corpo que toma o nome de Isabel mas sinto uma constante ansiedade de sair. Conhecer gente, conversar, não estar em casa. A rua. Sim, a rua arrebata-me, conquista-me. É lá que me sinto bem. Ao ar. Com algo sempre a acontecer, ou para acontecer. E o que acontece aborrece-me no preciso momento que ocorre. Quero logo mais. A Isabel pensa que esta a insatisfação é dela, mas sou eu que a empurro. Sem mim talvez fosse mais caseira, tivesse tido outra vida, filhos até. Mas isso é chorar sobre o molhado. As coisas são como são e se eu e a Isabel somos diferentes, separar-nos também não é possível. Por isso a Isabel não desconfia de mim e entrega-se. No início ainda mostrava uma estranheza. Depois do meu impulso, que a levava a sair, sentia-a absorta. Andava assim uns dias, como que a tentar recompor-se. A regressar a si. À procura do eu. Mas eu estava sempre lá e foi perdendo essa distância entre o que fazia e o que era. Já terá sido assim com o Zé. Bom falo do Zé porque sei que é nele que estais interessados. Que dizer do Zé que a Isabel não vos saiba contar. O Zé aconteceu num período em que a Isabel já não se interrogava. Pelo contrário, foi no período a seguir às indagações e estranhezas, numa altura em que a revolução estava no seu máximo fervor. E não é que a Isabel, estivesse imbuída de um particular espírito revolucionário, de missão, de mudança da ordem do mundo. Não, não era isso que a animava, mas era a rua com o seu extravasar de gente, de emoções. E se na altura muita gente vivia a revolução com a mente, com um objetivo bem delineado, como se constroem as ideias que tanto mal fazem ao mundo, ela bastava-se no transbordar, e uso o pronome ela pois a linguagem está sempre um passo atrás da revolução. Pensava eu que agora ela já não se distinguia de mim. Foi então nessa época que conheceu o Zé. Um homem bonito, interessou-me enquanto não o possuí. Era senhor de um ardor que devia muito à juventude. Senti uma curiosidade acicatada pela omnipresença da Joaninha. Não gostava dela. Tanta organização incomodava-me. Desconfiava mesmo que viesse a por um fim à rua. A termos que voltar para casa, a um mundo contido entre quatro paredes, com planos e objetivos a atingir. E a mim não me enganava. Como olhava para nós. Por isso empurrei a Isabel para o Zé. Como negação da ordem e uma manifestação da revolução. A Isabel acha que foi mais do que isso devido à nostalgia que lhe tolhe a memória. Pois é, com a idade procuramos dar aos nossos atos um sentido que deixe uma marca que fique quando tivermos de partir. Eu não sou assim.

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