Os seres são feitos da propriedade da contenção. De um corpo, comporta dos seus fluidos, que os impede de transbordar, da dissolução do ser num magma primordial. Dizem que este espraiar é o contrário de estar vivo. Que estar vivo é a contenção, a vida entre portas, sendo o corpo o zeloso guardião do eu, da dignidade, de tudo o que somos feitos. Talvez se permita algum extravasar, mas controlado, pensado, de consequências bem definidas, e acima de tudo capaz de preservar o eu. Eu não sou assim. Tenho um corpo que toma o nome de Isabel mas sinto uma constante ansiedade de sair. Conhecer gente, conversar, não estar em casa. A rua. Sim, a rua arrebata-me, conquista-me. É lá que me sinto bem. Ao ar. Com algo sempre a acontecer, ou para acontecer. E o que acontece aborrece-me no preciso momento que ocorre. Quero logo mais. A Isabel pensa que esta a insatisfação é dela, mas sou eu que a empurro. Sem mim talvez fosse mais caseira, tivesse tido outra vida, filhos até. Mas isso é chorar sobre o molhado. As coisas são como são e se eu e a Isabel somos diferentes, separar-nos também não é possível. Por isso a Isabel não desconfia de mim e entrega-se. No início ainda mostrava uma estranheza. Depois do meu impulso, que a levava a sair, sentia-a absorta. Andava assim uns dias, como que a tentar recompor-se. A regressar a si. À procura do eu. Mas eu estava sempre lá e foi perdendo essa distância entre o que fazia e o que era. Já terá sido assim com o Zé. Bom falo do Zé porque sei que é nele que estais interessados. Que dizer do Zé que a Isabel não vos saiba contar. O Zé aconteceu num período em que a Isabel já não se interrogava. Pelo contrário, foi no período a seguir às indagações e estranhezas, numa altura em que a revolução estava no seu máximo fervor. E não é que a Isabel, estivesse imbuída de um particular espírito revolucionário, de missão, de mudança da ordem do mundo. Não, não era isso que a animava, mas era a rua com o seu extravasar de gente, de emoções. E se na altura muita gente vivia a revolução com a mente, com um objetivo bem delineado, como se constroem as ideias que tanto mal fazem ao mundo, ela bastava-se no transbordar, e uso o pronome ela pois a linguagem está sempre um passo atrás da revolução. Pensava eu que agora ela já não se distinguia de mim. Foi então nessa época que conheceu o Zé. Um homem bonito, interessou-me enquanto não o possuí. Era senhor de um ardor que devia muito à juventude. Senti uma curiosidade acicatada pela omnipresença da Joaninha. Não gostava dela. Tanta organização incomodava-me. Desconfiava mesmo que viesse a por um fim à rua. A termos que voltar para casa, a um mundo contido entre quatro paredes, com planos e objetivos a atingir. E a mim não me enganava. Como olhava para nós. Por isso empurrei a Isabel para o Zé. Como negação da ordem e uma manifestação da revolução. A Isabel acha que foi mais do que isso devido à nostalgia que lhe tolhe a memória. Pois é, com a idade procuramos dar aos nossos atos um sentido que deixe uma marca que fique quando tivermos de partir. Eu não sou assim.
In 25 de abril sempre (2016)
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