terça-feira, 16 de agosto de 2016

Esperança – Cátia

A última coisa a perder-se é a esperança, diz-se. Concordo, sou uma sobrevivente salvadora, especializada em trazer à tona o que se afundou. Várias vezes medalhada, onde vou sou recebida com carinho. Não há quem não goste de mim. Sinto-o nos que se afundam. Descendo com os olhos agarrados à superfície imploram-me quando me veem mergulhar. Um a um, trago-os de volta ao seu lugar. Dou-lhes conselhos. Tenham cautela. Não repitam os erros do passado. Eles agradecem. Dizem que sim. Prometem-se que agora será diferente, não voltará a acontecer. Se tenho algo de vadia não é por minha culpa. As pessoas emprestam-me umas às outras. Dizem, não percas a esperança, comigo também foi assim. E assim, de exemplo em exemplo, lá vou eu aconselhada a quem precisa. Foi assim que cheguei à Cátia. Não desistas do Afonso disseram-lhe. E a Cátia não desistiu. O tempo passou e a Cátia deixou-se ficar. Quando voltou a duvidar disseram-lhe, depois de todo este tempo não podes desistir de ti. É então que chego eu. Lá mergulho a buscar a Cátia e repor o que foi arrumando com o Afonso. Pequenos objetos. Pequenas situações. Apenas para fixar uma única coisa. O tempo. Por isso sempre que trago algum deles de volta à tona é o tempo que estou a repor. A Cátia necessita de mim pois ninguém gosta de olhar para trás e ver um abismo. Devem estar a pensar que sou uma fonte de energia e dedicação, sempre atenta e pronta. Não podiam estar mais enganados. Na realidade sou bastante preguiçosa. Pelo menos agora que criei nome. Pouco faço. Vivo em regime de franchising. Fazem tudo em meu nome. Sinto-me uma Deusa do Olimpo. A Cátia deixa-se afundar e depois vai-se buscar em meu nome. Diz, se não fosse a esperança, e eu lá de cima observo-a. Um ponto de cabelos que se agitam enquanto se move de um lado para o outro num frenesim. Abre portas. Fecha portas. Deixa-se ficar. Imóvel, é quando se encolhe que sei que se prepara para afundar. Um ponto que se centra sobre si mesmo. Depois olha para mim, chama o meu nome. Vejo-a esbracejar, agarrar os objetos, repô-los no lugar. No fim agradece-me pois eu sou a sua esperança. Uma preguiçosa observadora com um nome do tamanho da minha indolência. Mas vou-vos confessar. Suspeito que que sou apenas uma palavra que esconde outra com menos aspirações e mais acomodada, esperar. Mas porque falo eu com este despudor? Porque posso. Não podem os abastados ter momentos de incerteza e decidir abraçar uma vida despojada? Da mesma forma eu, a esperança, me dispo das minhas louvadas virtudes e me apresento como realmente sou, pois sou dos seres mais etéreos do universo, estou em todo o lado. O que motiva aquela tresloucada correria do eletrão em torno do protão senão a esperança. Todos os seres que não têm têm esperança. A Cátia por vezes sente que não tem o Afonso e por isso tem esperança. E tem muita esperança. Tudo o que sente é feito de mim. Sei que está confusa. Por vezes acha que sente e por isso tem esperança e depois vem o reverso em que é por ter esperança que sente.

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