quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Espelho – Humberto

Sou senhor de uma grande responsabilidade. Chegam a mim aspirações, interrogações, dúvidas, vaidades, sei lá eu, e a todos tenho que dar uma resposta. Se dissesse que sou verdadeiro, o fiel retrato da realidade, estaria a mentir, e de qualquer forma também ninguém acreditaria em mim. Sou mais um oráculo. Confrontam-me não para saberem o que são mas sim o que poderão vir a ser. No caso de Humberto, um homem com ambições políticas, isso é evidente. Vem ao espelho para ver como quer que o vejam. Treina posses sérias, vários tipos de entoações, que se ajustem ás diferentes situações, da surpresa ao pesar, procura o estereótipo que mais se lhe poderá ajustar. Confesso-vos como espelho que procura o género sério, não apenas porque é aquele que estatisticamente tem levado mais longe, compassadamente, sem pressas, a do homem que inspira confiança, mas também porque é um homem de direito, um pouco falto de impulso artístico, devoto das miudezas. Eu, que sou espelho, não vejo nisso nada de errado. Quando o olho não vejo um homem mau, apenas alguém que procura perceber qual é o seu lugar no mundo, com o mesmo direito de uma mulher bonita que não me larga ou um trolha que me ignora. Vejo até mesmo um homem bom, se entendermos que todo o que sofre se não é bom tem pelo menos a condição de o vir a ser. Esse é pelo menos o ponto de vista das religiões que professam que o fruto da dor é a compaixão. Mas deixemo-nos de divagações pois qualquer filosofia de um espelho será baça. Pois, Humberto é um homem triste, tive a certeza quando terminou com a Catarina, no entanto já desconfiava embora lhe desse o esperado feedback, que como já deveis ter percebido essa é a função do espelho coerente. Depois de Catarina, via um homem que com sofrimento se interrogava perante mim. Um homem que vestiu uma roupagem que sente desajustada mas que não pode despir. Como quem se senta numa cadeira e ao fim de algum tempo começa-se a sentir desconfortável e em que levantar-se é a última das possibilidades, pois seria negar um sonho, uma ambição, e todos temos direito a eles. Sei que secretamente amaldiçoou o mundo. Perante mim mudava repentinamente da posse impassível a um rosto tolhido pela mais completa raiva, seguido de um sofrimento sem par. Temi pela sua saúde. E senti a sua encruzilhada. Gigantesca, porque não tinha sido munido nem da criatividade nem da desonestidade, e acutilante, pois temia que alguém soubesse. Também eu sofria, mas que pode fazer um pobre espelho, a mais passiva das criaturas. Ainda assim, desafiando as leis do criador, procurava transcender-me. Afeiçoei-me a Humberto. Chamai-lhe amor se quiserdes. Senti pena dele, enchi-me de compaixão. Sofri. E assim estive algum tempo. Mas então, num momento de loucura, revoltei-me com Deus, que sabia que nos observava, e quando mais uma vez Humberto chegou perante mim, enchi-me de coragem e disse-lhe, deixa-te de merdas.

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