sábado, 27 de agosto de 2016

Distração – Isabel

A Isabel distrai-se com muita frequência. Não é coisa que se diga, mas é verdade. E, por isso, provocou um acidente. Sei que se justificou à polícia com a distração provocada pelo corpo a estatelar-se no chão, um ruído que, conjuntamente com o subsequente clamor, abafou o empurrão dado ao pequeno Romeu. Não é completamente falso, a queda distraiu-a de facto, mas foi uma soma de distrações que provocou o acidente. Que raio anda uma mulher de 32 anos a conduzir e a repensar naquele fedelho no Bairro Alto, na noite anterior, entre a ida do restaurante ao café onde tinha combinado com uns amigos. Ainda protestou com ele, mas foi mais num tom de desafio, como quem lhe diz, tens desaforo mas agora foges. Gosta do atrevimento, que se lhe há-de fazer. Não estou a dizer isto para isentar o carro de culpas. É verdade que foi lento na travagem. Mas o que pode um carro fazer no aborrecimento do tráfego diário senão entreter-se com os pensamentos do seu condutor que pela mesmíssima razão se alheia do ato de conduzir. Distrações. E, tão distraída ia Isabel que nem reconheceu quem caiu. Também não era fácil. A queda ocorreu num instante, como uma estrela cadente que não se espera, no preciso momento em que se dá por ela já passou. E, depois, ficou preocupada com o miúdo que tombou à sua frente. Outra distração. Foi coisa pouca. A polícia tomou conta do incidente para a eventualidade de vir a ser necessário ativar o seguro. A ida ao hospital apenas confirmou contusões externas. Ainda, outra distração. Contudo, é provável que mesmo que se tivesse dirigido para o passeio não teria identificado Gonçalo. Já não o via há algum tempo, talvez uns 6 anos, e ele tinha a cara esborrachada de encontro à calçada, revelando apenas a bochecha e a orelha esquerda, a distância do olho ao chão tinha sido encurtada pela fratura do nariz. Gonçalo não teria então mais de 20 anos. Era responsável pelos cartazes do movimento. Tinha-lhe sido sugerido pelo Zé. Trazia uma daquelas inocências que se deixam pescar. Isabel trouxe-o em lume brando. Mais pelo gosto de puxar e soltar a linha, sem um verdadeiro interesse, homens moles não puxam carroça. Isabel até comentou a uma amiga, entredentes, uma distração. Naquele vai e vem Gonçalo até aderiu ao movimento. Quando Isabel saiu ele ainda por lá ficou. Mas que interessam estes pormenores? Não nos estaremos a distrair de algo importante, que não é uma distração? Gonçalo não caiu porque se distraiu, atirou-se da janela. Vou-vos dizer a minha opinião, e não é necessário avisar-vos que é uma opinião parcial, facciosa até. O mundo é feito de distrações. O que parecem ser atos resolutos são de facto, apenas, a soma de distrações. Sim, uma distração isolada é uma distração, mas quando as distrações se acumulam, umas sobre as outras, acontecem as coisas fundamentais, aquelas que trazem a marca da determinação. Posso-vos falar das da Isabel. Uma vida cheia de distrações. Pouco sei sobre o Gonçalo, mas se tiver certa, ele julga que se atira da janela, porém é, na realidade, a consequência de várias distrações.

Sem comentários:

Enviar um comentário