quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Diário – Catarina

Letra miudinha disposta em linhas que varrem de lado a lado o pequeno caderno. A escrita serrada e contínua dá imediatamente a perceber o carácter privado, escrito para ser escrito, para a comunicação num só sentido. Eu sou o diário da Catarina. Repositório de observações sobre o mundo, abro-me às confidências que intimamente se fazem a um amante sobre os outros, como se nunca pudesse vir a acontecer uma separação, na crença da unicidade que o amor traz. Posso garantir que sou o mais fiel dos amantes. Que apenas contarei os meus segredos se for violado, aberto e lido sem autorização. O que contenho não diferirá com certeza de qualquer diário de uma rapariga de 15 anos com curiosidade suficiente sobre o mundo e o seu corpo. Uma amalgama de querer e receio, de gostar e aversão, ainda não distante da educação infantil sobre a higiene, o limpo e o sujo. Sou o último testemunho duma inocência construída na pureza. Mas, o que tenho de especial. O que podem ter de especial os diários. De certeza que não é a forma como começam. Começamos com o fim da infância. Onde diferimos é na forma como acabamos. É aí que se testemunha a passagem, frequentemente abrupta, à maturidade, ao fim da descoberta. Se por acaso fossemos tão ingénuos como quem nos escreve padeceríamos da ansiedade da obra inacabada, à espera do seu autor para fechar um enredo, terminar uma contenda. Mas um dia esquecem-se de nós e somos lentamente despromovidos na distância ao nosso escriba, complicando o acesso, acabando eventualmente num caixote transportado por carregadores de empresas de mudanças de sótão em sótão, até que um putativo herdeiro venha avaliar do nosso real valor. Nada de palpável encontrará, pois, os diários são rituais de passagem que se esgotam no preciso momento em que os seus sujeitos começam as suas realizações. No meu caso, as últimas páginas estão preenchidas por um fascínio por Humberto interrompido por uma revolta, uma quase raiva, para com Romeu. Este Romeu chegou de repente quase o oposto de Humberto, que paulatinamente me foi apresentado. Humberto foi-me inicialmente fisicamente descrito. Começou pelos olhos azuis e os cabelos loiros. Mais tarde uma detalhada descrição das mãos, e só então me falou do seu temperamento. De como era simpático e conversador, diferente dos outros rapazes, mais fugidios, que falavam de passagem com as raparigas como continuação da competição em que estavam envolvidos. Humberto não era assim e começaram a namorar. Contou-me das longas conversas e das suas opiniões, uma estruturação de objetivos onde percebi uma semente de ambição, em que suspeitei Catarina se revia. Então, um dia, subitamente, falou como Romeu, dois anos mais velho, interrompeu Humberto. Da frieza com que se dirigiu a ele. Quase o ignorando. Defendeu Humberto na exata medida em que exacerbou uma profunda aversão a Romeu. E aí terminou o diário. Não sei o que aconteceu a Humberto, nem sequer se Romeu era alto ou baixo, ou qual seria a sua opinião acerca das coisas.

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