sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Decisão – Catarina

A vida é feita de decisões. Decisões que comprometem e não deixam olhar para trás. Que interrompem com o óbvio. Pela sua educação, por aquilo que os pais lhe ensinaram, não seria este o caminho a que Catarina estaria predestinada. As histórias que lhe contavam, quando ainda não sabia ler, eram sobre elefantes coloridos que conviviam com os mais improváveis amigos do reino animal, onde as diferenças se esbatiam numa camaradagem feita da origem das coisas, numa paz universal concebida à medida das crianças. Depois cheguei eu. Instalei-me junto ao seu ouvido. Dizia-lhe que não teria que ser assim. Ela não me ligava, mas à tentação não se estranha a insistência. Imiscui-me onde não era chamada. Posso dizer que não foi difícil. Sim, a camaradagem universal está bem, mas é para o princípio, e o fim, da vida. Comecei-lhe por instalar a dúvida que cria um redemoinho. Uma vertigem. Olhava-me estonteada, com o receio que se tem pelo que nos atrai. Mas Catarina era cuidadosa e não se me entregou imediatamente. Resistiu e isso dava-me gozo. Sabia-a minha, pois na resistência já reconhecia a certeza da entrega. Como os passos que se dão atrás para tomar balanço. Para aumentar a tensão. Fazer crescer a vontade e o prazer do momento em que reconhecesse que eu era a decisão. Dizem que as decisões devem ser pensadas, tomadas com calma. Tretas, que eu bem sei. Depende das pessoas, dizem. Qual quê. A Catarina, sempre tão certa de si mesma. Desde pequena, cedo começou a ser autossuficiente, a saber o que queria. Se não fosse porque todas as decisões são precipitações, certamente que não teria sido uma precipitação. Mas eu sou mesmo assim. Senão ninguém diria, tomei uma decisão! A sério? Qual foi? Alguma coisa óbvia? Claro que não, para isso não é necessário tomar nenhuma. E chegou um momento em que o caçador se tornou presa. Não dei logo por isso, tão concentrado que estava no jogo. Como o saboreava. As insinuações seguidas da atenta escuta da reação. As contrações involuntárias dos músculos, o rubescer. Esses avanços e recuos provocavam-me um tal prazer que comecei a desfrutar desses momentos descontroladamente. Repetia-me pela pura procura da repetição e isso fez-me vítima de uma cegueira. Não via que era Catarina que me observava agora a mim. Eu estudava as suas reações à procura de mais insinuações. Mas era ela a dona do tempo. Já tinha tomado a decisão e eu era seu escravo. Vivia uma ilusão que ela alimentava com malícia. Talvez eu até tivesse consciência de tudo, mas fingia ignorar para prolongar a sensação de ser seu senhor. Sucumbir ao próprio veneno pode ser a indicação que este é o de menos importância. Que o veneno não é nada sem o corpo onde se instala. Que eu me julgava toda poderosa nas minhas insinuações, desencadeando o imprevisível. Mas vivo agora nesta suspeição de ter sido um mero joguete. Uma invenção de Catarina. Sua obra. Foi ela que me colocou junto ao seu ouvido. Que me levou às insinuações, que prolongou o meu prazer, e agora o meu sofrimento.

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