segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Canção – Afonso

A guitarra do Afonso queixa-se. Há nela a imensa incompreensão daqueles que se sentem enganados nos seus sonhos. Acha que ele nunca lhe tocou nenhuma canção e é impossível convencê-la do contrário, quedou sobre si mesma na casmurrice dos traídos. Por isso não tento. Deixo-a estar. Talvez o tempo sare. Ou talvez não, e as cordas laças não voltem a ser afinadas. Devo confessar que pouco me importa. Ao princípio porventura um pouco, devido à curiosidade de procurar algum brilho por entre o tolhimento. Depois desliguei-me. A cabeça do Afonso também não me deixava em paz. Concebia-me tão perfeita. Uma daquelas canções que todos repetem. Cada um para seu lado. Cada um para si. De ser tanto cantada fui aprendendo a distanciar-me, a observar os que me cantam. Aos magotes. Sorria a observar o uníssono. Sentia-me poderosa, mágica, provocadora de sonhos. E os sonhos têm este poder de acasalar com o quer que seja, desde que seja outro sonho. A única promiscuidade real é a dos sonhos, a dos corpos só acontece porque estes se submetem à sua insatisfação. Era isso que eu via nos concertos em que todos me cantarolavam, de olhos semicerrados, olhando para dentro, extasiados. Ah, e que melhor imagem poderá haver para o Afonso. É bem verdade que todo o criador inadvertidamente constrói a musa que o enfeitiça. E eu, pobre canção, uma musa. Rio-me de me ver assim. Fui eu que sonhei a guitarra. Fi-la sonhar. Fi-la sofrer. Ela coitada nunca me sonhou a mim. Talvez por isso acabe nessa miséria. Só os que sonham o sonho podem ser livres. Por isso, repito, rio de me ver assim, canção na cabeça do Afonso, maior que todas as coisas, sorvedoiro dos que por mim se deixam possuir. Criadora e destrutora, igual por igual. Força motriz da criação dos impérios dos insignificantes. Daqueles que não levantam a voz. Dos que falam para dentro. Todos esses trazem uma canção dentro da cabeça. Como o Afonso. Por pressentirem como é gigantesco o que sonham tomam a opção de ser seus vassalos, seus humildes servidores, nada tentando para além da fantasia, autocondenando-se ao silêncio e à adoração. Quanto tempo fui senhora do Afonso. Agora que encontrou a Cátia menos, mas ainda assim, quando se aborrece, quando se entedia, clama por mim. E tomo conta dele como só eu sei. Tomo-o como um todo, possuo-o. E a Cátia assustada. As mulheres pressentem quando os seus homens são possuídos. Sentem-nos escorregadios, alheados. Por isso olham em volta à procura de outra mulher, têm a tendência a suspeitar que só um igual pode roubar outro igual, que a vida é feita de trocas, feita de pequenos ganhos e pequenas perdas, nada de devastador, como eu. Por isso sentem-se traídas e não sabem como. Procuram e nada encontram. Tolhem-se e entregam-se, quiçá, ao misticismo, à procura do para além do humano, não desconfiando da razão do frémito que lhes escapa. A Cátia não imagina que com o Afonso, na sua cabeça, vou eu, uma canção.

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