quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Calçada – Gonçalo, ou o que resta dele

Isto de o Gonçalo ter ficado irreconhecível, da amálgama espectral, de ser necessário o auxílio da ciência para identificar o corpo, não é bem assim. São tiques da gravidade que tem a mania das grandezas. Quem vos o assegura é a calçada, onde ele agora jaz, que sou mais terra a terra. Ademais, o Gonçalo trazia a carteira com ele, pelo que não foi difícil às autoridades saber a quem pertencia o corpo e entrar em contacto com quem de direito. Agora que não gosto que me caiam em cima, não gosto. Já me aborrecem as multidões que se comprimem e impedem o sol de realçar os bonitos efeitos de pedra. No meu caso linhas onduladas que atravessam o passeio de lés a lés. Tereis porventura notado que propago a nostalgia do mar. Uma experiência vivida em terra a que portuguesmente se chama saudade. O que quereis, sou do tempo da outra senhora, e não venham cá com conversas. Não levanto a voz, não, que os tempos não o aconselham, e também não fui assim educada, mas entre as minhas arestas, de pedra a pedra, principalmente ao serão, aqui vamos sussurrando os tempos do Senhor Doutor. Somos como somos e não esperem que mudemos. Fomos moldados por homens de mãos farinhentas de calcário com coração de vinho. Sempre tão solícitos por fora. Eram felizes. Não é mau ser-se escravo o que custa é não gostar de o ser. E o vinho ajuda, mesmo que avinagrado. Não vos será portanto difícil imaginar o quanto me afligem as manifestações que por aqui passam gritando palavras de ordem. E agora, suplício dos suplícios, cai-me este traste em cima. O sangue a escorrer pelas pedras, a ensopar a areia entre as falhas. A boca, semiaberta, com o maxilar partido, liberta uma derradeira saliva, talvez indiferente à multa por cuspir para o chão, confirmação que os mortos se dão a certas liberdades. A cabeça está solta do resto do corpo, foi a primeira a bater no chão e por alturas do pescoço ouviu-se um pequeno estalido que antecedeu o surdo baque feito pelo tronco e pernas. Sei que mereceria uma melhor descrição a sequência de sons feitos do estilhaçar do maxilar, com as suas ressonâncias de dentes a saltar, o esmigalhar do nariz, o desgarrar do pescoço e o baque final. Talvez pudesse ser aproveitada para uma dessas óperas que transformam acontecimentos trágicos em música, mas falta-me a instrução, apenas posso garantir que a queda não foi de todo desprovida da sua própria sonoridade. Mas o que me realmente preocupa não é o corpo, que eu estou habituada a todo o tipo de matéria, o que me preocupa é se com ele vem alguma dessas ideias subversivas, que agora estão na moda, que entre este sangue haja algum vírus que me contamine, para dar cabo dos nossos sossegados serões, transformá-los em discussões sobre assuntos que não entendemos, criar desavenças. Às do futebol estou habituada, foi falta, foi penálti, foi golo, questões de uma lógica que quase sempre se resolve com os olhos, senão com o coração, mas de que todos sabemos falar, sem diferenças de classe. Mas com as ideias progressistas ainda acabamos cada um para o seu lado a papaguear o que não se entende, como se estivéssemos a aprender a ler de cor.

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