sábado, 20 de agosto de 2016

Caixa de Fósforos – Gonçalo

Receber uma caixa de fósforos com uma pedra, uns paus e um pedaço de terra no dia de anos não é o mais comum dos presentes e no entanto fui eu que carreguei esse fardo quando passei da mão de Ivone para a de Gonçalo. Na altura era apenas uma caixa usada, com a lixa quase gasta, que Ivone tinha junto ao fogão. Inicialmente envergonhei-me, pois tinha orgulho em guardar esses senhores do fogo, industrialmente alinhados, todos com a cabeça para o mesmo lado, filhos distantes de uma árvore e aos quais é colocada uma ponta incendiária. Vestia com dignidade essa responsabilidade. O choque de me ver repentinamente esventrada dos últimos fósforos não foi menor que aquele se sente ao assistir ao extermínio de um exército que com garbo se viu desfilar. E depois, a humilhação de ter de tolerar um pedra colhida ao acaso, acompanhada por um pedaço de terra e uns paus retorcidos, desencadeou em mim o nojo do irregular, do sujo e do feio. Não sei se foi essa a imagem que transmiti a Gonçalo quando poisei na sua mão. Pelo menos, pela sua cara, havia surpresa. Ivone tinha-o chamado à parte e entregou-me com a mão aberta como que se duma cerimónia se tratasse. Gonçalo pegou em mim e abriu-me. Toda eu me encolhi de vergonha, sentia-me despojada dos músculos e observada até às entranhas. Apeteceu dizer, se pudesse falar, que não tinha sido sempre assim, que já tinha sido feita de um alinhamento preciso e metódico onde o todo se infere pela repetição da parte, numa espécie de multiplicação da ordem. Mas também notei que após a surpresa inicial Gonçalo procurou os olhos que Ivone tinha à espera dele e ficou pensativo. Comecei então eu a pensar que talvez neste fardo constrangedor houvesse o que não percebia. De facto, sempre desempenhei a minha obrigação, enrobustecendo-me com as vestes da minha função, e isso também é uma forma de não ver. Por isso comecei a questionar ao meu conteúdo. Que faziam eles antes de ter vindo para a caixa? Já se conheciam? Sabiam o que se esperava deles agora? As respostas não foram muito encorajadoras. As opiniões eram diversas. Falava cada um para seu lado, não concordando em nada. Era evidente que foi dentro da caixa que se tinham encontrado. Ainda assim não mostravam repulsa de agora estarem assim juntos. Estavam habituados aos encontros e desencontros de quem vive na rua, empurrados pelo vento ou por um pé distraído. Andava cada um na sua vida quando Ivone os colocou na caixa e ainda não tinham tido tempo de definir uma missão, um objetivo comum. Achavam mesmo que não deveria haver. A sua estadia seria temporária, era resultante do acaso e ele se encarregaria de os separar. Talvez fosse assim pensei, mas não conseguia esquecer os olhos de Gonçalo a procurar os de Ivone. Deveria haver alguma razão para eu ser despojada da regularidade e cheia deste fingimento de acaso.

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