segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Blusão – Zé

Um blusão coçado, este que está no bengaleiro. Joaninha está farta de dizer para comprar outro mas o Zé gosta de mim. Sou o único que quer seja inverno quer seja verão está sempre pronto para sair. Sou um companheiro. Mesmo essa acusação de ser coçado é falsa. Sou de cabedal. Talvez os blusões de cabedal de hoje em dia possam ficar roçados de finos que são, por mania da moda ou da economia. Mas eu sou de cepa antiga. Para me darem a forma dos humanos não tiraram de mim a vaca de que sou feito. Grosso, quando o Zé dobra o cotovelo são as minhas rugas que se revelam e não o braço dele. Sou uma armadura que protege este homem grande. Sinto que quando olham para ele, especialmente as mulheres, veem um belo homem de 1 metro e 80 a quem os 85 quilos acrescentam mais de imponência do que de gordura. Mas eu sei como é frágil o seu corpo. Conheço-o intimamente. O batimento dos órgãos. Os pequenos frenesins e as contrações. As hesitações que por vezes o atravessam. Sou leal. Nada conto. Como um amigo nem ao Zé disso falo. Vestido de mim, creio que até ele ignora, ou finge ignorar, as fraquezas do corpo. Imbuídos desta força, feita da união entre o amor que lhe dedico e a confiança que me tem, temos percorrido muito caminho. Mas é um homem sensível que, como todos, tem medo de morrer. A essa luz poderão ser vistas as suas escapadelas, os seus pecados. Poderão dizer que é desculpa de amigo. Que o defendo porque lhe visto a pele. Contudo sei como um corpo pode começar a sentir-se só depois de ser abandonado pelas certezas que as paixões trazem. Comprou-me depois de ter perdido a esperança na revolução. Foi pelas conversas que fui ouvindo que percebi o que se tinha passado antes. Então, ele, menos atento ao corpo, mais compenetrado no futuro, não sentia as hesitações. Não que elas lá não estivessem. Dos seus órgãos nunca eu senti um antes e um depois, como o sinto em Zé. É assim a juventude. Um ignorar feito de andar para a frente. Foi quando desconfiou do corpo que me vestiu, que procurou mãos que se metessem entre mim e o seu peito. Que o desejassem. Que cheias do desejo não sentissem as hesitações. Não se pode chamar pecado a esta necessidade. Nunca lhe senti vaidade nas conquistas. A beleza das mulheres traz paz. Não há ostentação, silêncio apenas. A outros ouvi-lhes eu contar-lhe das suas aventuras. Histórias de conquista e sucesso. Mas nem nessas horas propícias Zé se descoseu. Teria sido fácil. Ninguém o poderia acusar de vanglória. Não tinha sido ele que iniciou a conversa. Seria apenas um ato de camaradagem. Coisa normal entre homens concebidos para caçar. Mas não. Nunca vacilou. Já eu, confesso, feito de animal como sou, tinha alguma. Envaidecia-me de lhes sentir os seios quentes. Talvez o seu calor me trouxesse à memória o tempo em que vivia no campo cobrindo um corpo possante e calmo. Cheio de uma vida que era a minha. Que não se tirava para pendurar no bengaleiro à entrada de casa.

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