sábado, 6 de agosto de 2016

Amor – Joaninha e Zé

Todos sabemos que há muitas formas de amor. O amor entre Joaninha e o Zé é apenas uma delas. Mas poderemos dizer que é um? Não serão dois? Será que o amor que o Zé tem pela Joaninha é igual ao amor que a Joaninha tem pelo Zé? Se fosse um quereria dizer que quando começou, assim como quando terminou, isso aconteceu simultaneamente no Zé e na Joaninha, e contudo, qualquer pessoa que tenha amado sabe-o improvável, excetuando os casos de amor à primeira vista, que seriam a prova irrefutável da unicidade do amor se não acontecessem com tanta frequência à mesma pessoa, e quase sempre de uma forma inoportuna. Por outro lado, se são dois, então o amor não existe, é apenas um prolongado fingimento de que duas coisas diferentes são iguais. Mas, ninguém melhor que eu para esclarecer estas dúvidas, que imagino inquietantes para quem não é o amor. Eu sou o amor da Joaninha e do Zé. Suponho que neste momento ficaram convencidos que o amor é um. Bom, talvez devamos ser cautelosos. Eu sou o amor, mas eu não sou um, sou dois. Como é isso possível? Poderemos dizer que sou um mas existe uma distância que eu tenho que percorrer, da Joaninha para o Zé e de regresso à Joaninha, como os sins numa conversa telefónica. Ou talvez melhor os tás. Tás aí? Tou! Amas-me? Sim! Muito sofro eu nessa azafama, de um lado para o outro, a confirmar o irrevogável. Por isso quando se diz que o amor parte o coração, sou eu que bruscamente paro e me encosto a um canto sem me importar mais comigo, extenuado de amor. Se me aguento nessa primeira fase, vou então com o tempo deixando-me de correrias. Diz-se então que o amor é coisa passageira e o que fica é a amizade. Não sei. Foi a Joaninha que primeiro me enviou ao Zé. O Zé, distraído, não dava por nada. Empolgado pelos tempos, pelo movimento de massas. Sentia-me pequeno em todo aquele vendaval. Eu que fui feito para revirar as entranhas, não era nada, quando comparado com o amor à igualdade, à fraternidade e à amizade entre os povos. Sentia dentro de mim aquela tendência burguesa de possuir, de ter só para mim, mas calava-a bem fundo. A Joaninha sabia o que fazer. Para conquistar a exaltação do Zé, para a ter só para ela, fez o trabalho da formiga. Pacientemente esperou que chegasse o inverno. Carregou espiga a espiga, amealhou, criou a estrutura. Não que não se fosse imaginando com ele, belo, com os cabelos aos caracóis, a barba e o corpo forte. Mas sabia esperar, cada coisa a seu tempo. Assim posso dizer que cresci na Joaninha treinado com o olho no Zé, pronto a caça-lo, a tê-lo só para ela. Muito me ensinou. Quando o Zé teve o caso com a Isabel, revoltei-me. Não tinha sido para isso que tinha sido feito. Mas a Joaninha disse-me, tem calma, espera, cada coisa a seu tempo, deixa-o, que voar também cansa. Olhei para a Joaninha surpreendido. Não sentia ela a afronta? Não imaginava o corpo dele sobre o da Isabel a intrometer-se no nosso sonho? Meu Deus, cheguei a duvidar se eu seria de verdade.

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