Chegado ao quarto deita-se em cima da cama. Na imobilidade que o inunda, tenta detetar algum movimento no candeeiro do teto, ainda que ligeiro. Joaninha entra, acabou de chegar da escola, precisa de mudar de roupa antes de ir para a reunião. Fala, Joaninha fala da escola, das pessoas. Coisas de que Zé tem imagens, ora pormenorizadas ora desvanecidas, construídas, camada a camada, como quadros nunca finalizados que todos os dias são retocados. Observa o corpo da mulher, com a saia e o casaco, tirado o casaco, a blusa decotada com o colar de pérolas, debaixo das calças as pernas redondas com as marcas da idade. Não consegue evitar misturar o que ouve com o que vê. A idade da conversa e a idade do corpo. E contudo, continua tão ágil, tão cheia de sentido. Percebe isso, mas a lógica escapa-lhe, suspeita que o traçar de um caminho apenas aumenta o número de alternativas.
Não tem muito tempo. Um duche rápido e mudar de roupa. — Encontrei a Margarida à saída da escola. — dá a volta à cama e prossegue — Preocupada com a questão dos professores titulares. — abre a porta do guarda-vestidos — É a mais nova do agrupamento dela. Artes visuais. — Joaninha faz questão em realçar — De certa forma é uma surpresa não se ter colocado do lado dos jovens espoliados. — a voz não esconde alguma satisfação enquanto vai passando a mão por cabides que puxa ligeiramente para expor a roupa. Para por um instante e olha para ele que a segue com o olhar. Prossegue — Vai vir esta noite à reunião. — não evita pensar se Zé poderá ter interpretado alguma velada acusação — Temos que estar unidos. — procura abandonar a hesitação seguindo em frente — A forma como se começa é fundamental. — Interrompe-se. — Ah, o Gonçalves convidou-nos para no domingo ir almoçar lá a casa.
Ricardo acabou de sair. Deixa-se estar um pouco no sofá. Pensamentos que vão e vêm. A sensação doce do corpo pesado de Zé que a aperta contra a cama, o desconforto de sentir os filhos dele que não vê há muito, e de quem foi criando imagens, afunda-se na de Catarina de quem Zé é mais apegado e que imagina agora igual à de Joaninha. Agita-se, procura regressar ao Zé, não como uma abstração, um desejo, sabe que isso de nada serve, fixa-se sim em pormenores do rosto, marcas na pele, na tranquilidade de o sentir a dormir. Pensa nos seus pais, a cara do pai enrugada a olhar para ela, a mãe doméstica, o desejo que sentiu de sair, de mudar de vida, Lisboa pela primeira vez, Santa Apolónia, a luz desta cidade, uma vida nova, a sensação do recomeço, a paz que trazem os lugares virgens, o Zé, a voz que ouviu no hospital, a segurança, as incertezas, a paciência, encher-se de estar com ele seguido da espera.
In 25 de abril sempre (2016)
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