terça-feira, 2 de agosto de 2016

19:38 – 20:03

Depois da porta há um pequeno hall habitado pela existência. As coisas úteis a quem sai ou entra em casa. O bengaleiro com as várias possibilidades de casaco a usar nesta época do ano. Da gente da casa, da mulher e do filho, mas não da filha que já cá não mora. A sapateira igual. Algumas fotografias especadas sobre a cómoda cumprimentam quem entra preparando-se para contar uma história. Os filhos pequenos, a sorrir ou a correr. Ainda antes dos filhos, as lutas em que se envolveram, os amanhãs. Depois os filhos maiores, a ameaçarem ficar iguais ao pais, mas sem a luta, mais encarreirados ou com outras exaltações. Finalmente as fotografias da partida, da queima das fitas da filha, sob protesto da mãe, e do filho com a namorada, boa rapariga, ali colocada fora de tempo, para manifestar de um desejo e fincar um rumo, revelando algumas interrogações e procurando enterrar alguma ansiedade.
A porta do carro faz um ruído quando abre. Já está há algum tempo assim. Tem que o levar à oficina. Também não admira, já tem mais de 30 anos. Joaninha tem algum orgulho no Renault. Poderia desfazer-se dele, mas é como uma bandeira. Gosta de acentuar como contrasta com o cuidado que tem consigo, na maquilhagem, na roupa, e ao mesmo tempo marcar os seus valores. Ao volante pensa no filho de novo à procura de emprego. Continua em casa. Afonso já tem mais de 30 anos mas não consegue abdicar deste instinto protetor. E a situação não parece poder vir a melhorar. Um daqueles cursos das letras que não dão para nada. Já está há algum tempo com esta namorada. A filha tirou engenharia. Está empregada e há muito que vive com o namorado. Quando saiu quem mais lhe sentiu a falta foi o Zé. Sempre tão apegada a ela. Às vezes parece-lhe que a sua saída foi o fim de uma competição velada pela atenção do pai.
Tocam à porta, deve ser Ricardo, costuma aparecer por esta hora para dois dedos de conversa. — Na cama a esta hora? — diz-lhe com um piscar de olho. — O Zé acabou de sair — responde-lhe Ivone com um pequeno sorriso no canto da boca. — Como vão as coisas? Já vai algum tempo. Quanto? Dois anos, não é? — pergunta-lhe a atiçar. — Sim, — assenta Ivone — um pouco mais de dois anos. Conheci-o quando estive no hospital. Sabes os filhos… — diz Ivone, sentindo-se obrigada a acrescentar uma desculpa que sabe não fazer sentido. — Como está o Humberto? — pergunta para mudar de conversa. — Está bem — responde — Pode ser agora que os pais dele comecem a aceitar a nossa relação. Convidámo-los a vir-nos visitar. — E então? — interrompe Ivone? — Pela mãe acho que vêm, mas do pai já não sei. — Ricardo, pestaneja um pouco. — Foi tudo tão complicado.

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