segunda-feira, 1 de agosto de 2016

19:08 – 19:38

Se caminhasse de olhos fechados talvez tivesse mais tino na direção. Uma brisa refresca o ar. Zé recorda o corpo imobilizado em ponte, uns instantes só, e depois o descer da montanha que laboriosamente subiu. Agora regressa a casa. São assim as caminhadas, feitas do ir e do vir, planeadas e sem surpresas, não são como as migrações e por isso já têm o regresso na partida. Desordenadamente, amontoam-se-lhe na cabeça os fragmentos de por onde vai passando. As árvores de tronco bochechudo, que apertou com a mão peluda marcada pela idade. O rio quase seco com o seu leito de seixos que ladeiam um fio ondulado e negro. As pedras negras do passeio dispostas em zebra que o estonteiam. As faixas de sombra dos candeeiros de iluminação que se estendem fantasmagóricas à sua frente pelo sol do entardecer. Está à porta de casa. Cerca de 30 minutos é o que costuma demorar desde a casa de Ivone.
À porta da escola passa gente. Para-se e fala-se. Joaninha está com alguns colegas. Discute-se o problema dos professores titulares. Querem diferenciar os professores para virar uns contra os outros, argumenta. A avaliação é a desculpa. No início serão falinha mansas, mas uma vez se encontrem no lugar começará o respeito, e depois as vénias. Devagar, despercebidamente, para voltar ao antigamente. O fim da escola democrática. Não podemos ficar de braços cruzados. Pelo menos eu não ficarei. É na primeira reação que se procura cheirar o medo. Isso determinará toda a estratégia. Por isso devemos recusar-nos a fazer os exames de avaliação. Ao dono pouco interessa o pau, quer só ver se lhe o trazem à mão. Logo à noite vamos discutir na reunião que formas de luta deveremos tomar. Margarida, de artes visuais, também está revoltada. É a mais nova mas não vai na conversa da luta de gerações.
Deitada na cama com um lençol branco que lhe cobre uma perna e traça um risco oblíquo ao longo do corpo, Ivone deixa-se estar sob o fresco que entra pela janela. Sente o ténue peso do lençol, e a sua quase ausência, os ruídos que entram com o ar, de carros que passam amiúde, vozes de pessoas de regresso a casa, crianças no parque em frente que pedem uma última brincadeira antes de recolherem para jantar. A luz que passa por entre as fisgas do estore estende-se sobre o quarto chegando ao seu corpo que respira acordado, oferecendo-se ao fresco quando inspira, os músculos entregues a uma letargia expetante. Numa quase adoração, com os olhos semi-abertos, Ivone abarca a totalidade do quarto, não se focando em nada, nem no reposteiro que por vezes ondula, nem no espelho com reflexos baços, ou sequer no buraco formado pela porta aberta.

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